Os donos do poder

O caso Palocci, independentemente do desfecho que tenha, deveria ser examinado como mais um exemplo vexaminoso do poder à brasileira. Infelizmente, não foi nem será, já que tudo fica sempre limitado a uma rixa entre petistas e tucanos, sob a noção tácita do "todos temos rabo preso". A declaração da presidente Dilma Rousseff, depois de vários dias de silêncio, de que Palocci estaria prestando esclarecimentos aos "órgãos de controle", e pedindo que a questão não seja "politizada", foi mais um antídoto contra o oba-oba em torno de seu perfil mais discreto que o de Lula (como se alguém pudesse ser menos discreto do que ele). Não é apenas aos órgãos de controle que ele deve prestar esclarecimentos; é à sociedade. E quem politizou a questão foi o próprio governo, ao fazer comparações com outros ex-ministros que prestam consultoria e ao mentir que esses órgãos estariam informados do salto de patrimônio.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

O que dizer então da interferência de Lula? Certo, ao ver que o governo tinha feito besteira ao ameaçar o PMDB de perder ministérios em função da crise, a malemolência e popularidade do ex-presidente pareceram úteis. Mas onde estava Dilma até quinta-feira, quando enfim veio a público e tomou a defesa do ministro da Casa Civil? Os termos foram lamentáveis, mas de qualquer forma seu papel como presidente não é ficar quieta diante de acusações desse porte contra o ocupante de um cargo tão fundamental, que ela mesma ocupou antes de sair à sucessão de Lula e depois entregou à sua grande amiga Erenice Guerra, que o converteu em balcão de negócios familiares. Se toda vez que passar por uma crise Dilma tiver de recorrer a Lula, convenhamos, jamais terá autonomia suficiente para fazer as mudanças de rumo necessárias.

Que mudanças de rumo? A primeira seria justamente essa: limitar o balcão de negócios entre parentes e amigos na máquina pública, na qual o dinheiro do contribuinte escorre para o ralo de propinas, superfaturamentos e fraudes, como se vê agora em Campinas. Ao contrário do que prometeu ao longo de 22 anos, Lula não fez nada para mudar isso em seus oito anos de presidência. Ao contrário. Não só o número de escândalos aumentou, com destaque para o do mensalão, mas também se deu um carimbo oficial a essas "praxes" com o dinheiro público, com a máxima autoridade brasileira alegando repetidamente o "todo mundo faz" e o "eu não sabia". (Será que ele não sabia também que seus filhos ganhariam passaportes diplomáticos como presente de Natal, nos estertores de seu segundo mandato?) A ascensão do PT ao Planalto Central foi a confirmação prática da boutade de que "a esquerda é a direita fora do poder".

Que o médico Palocci tenha multiplicado seu patrimônio vinte vezes em quatro anos apenas fazendo consultorias e palestras sobre economia, e que num ano só - justamente o ano eleitoral de 2010 - sua empresa tenha faturado R$ 20 milhões junto a empreiteiras e bancos, pouco antes de ser disfarçada de escritório imobiliário, são motivos mais que suficientes para ser chamado às falas pelos outros poderes. E não vale fazer como Renan Calheiros e brandir impunemente meia dúzia de notas fiscais forjadas, ou justificar a obscuridade com cláusulas contratuais que tampouco foram vistas; é preciso revelar o raio X desses negócios. Lula, de novo usando analogia boba vinda do futebol, teve o desplante de dizer que Palocci é um Pelé em sua área. Não, ele é melhor que Pelé: nem os negócios do atleta do século foram tão obscuros assim... E Pelé precisa fazer publicidade para ganhar tanto dinheiro num ano. Nem o "craque" Lula vai conseguir juntar essa quantia com suas "palestras".

Todos os dias lemos nos jornais o articulismo chapa branca assegurar que o Brasil vai muito bem, que em trinta anos estará igual aos Estados Unidos em termos de igualdade, que Lula foi o responsável direto pela criação de empregos e distribuição de renda dos últimos anos, etc. Ou seja, se o governo FHC deu as bases econômicas, Lula fez a virada social. Mas e a política, a ética, o desenvolvimento cultural da nação? Uma esquerda digna do nome não deveria cobrar impostos cada vez mais altos para as camadas mais pobres, barganhar cargos com retrógrados como Sarney, perpetuar o que Raymundo Faoro chamou de patrimonialismo. Ir contra o status quo seria mudar tudo isso, em vez de privatizar a máquina pública para ações entre amigos - e ainda querer chamá-las de "lobbies legais". O poder à brasileira funciona segundo a mentalidade oligárquica e isso tem preço social e econômico. A sorte de seus donos é que o povo vai às ruas protestar contra jogadores de futebol, mas Palocci pode circular em qualquer cidade sem receber uma vaia sequer.

Rodapé. É tolice achar que as bibliotecas são silenciosas, escrevi no final do texto de abertura da semana passada. E poucos autores representam tão bem essa ideia do que o português Fernando Pessoa e o argentino Jorge Luis Borges, ambos com muitos leitores no Brasil. Tanto é que o livro de José Paulo Cavalcanti Filho, Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia (editora Record), está com boa vendagem e repercussão. Cavalcanti encontrou um modo engenhoso - e trabalhoso, como qualquer biógrafo pode garantir - de contar as vidas de Pessoa e seus heterônimos com tópicos e trechos do próprio poeta, numa espécie de enciclopédia compacta e dinâmica.

Já Borges - Uma Vida, de Edwin Williamson (Companhia das Letras), tem um formato mais convencional, mas isso não significa que ele ignore os pensamentos do ficcionista em favor dos fatos biográficos; em realidade, faz um eletroencefalograma de Borges, o que também exigiu muito trabalho. O mais importante é que ambos os autores saem engrandecidos dessas biografias: aprendemos mais sobre eles e somos intimados a voltar às suas obras, o que é o maior objetivo de qualquer biografia literária que se preze.

Convite. Na próxima quinta-feira, dia 2/6, na Fnac da avenida Paulista, a partir das 19h30, faço lançamento de meu novo livro, Dez Anos que Encolheram o Mundo, com debate com o historiador Marco Villa sobre a primeira década do século XXI. Todos estão convidados.

De la musique. Na segunda-feira vi o show de Paul McCartney no Engenhão, no Rio, depois de um dia belíssimo. Ele impressiona pela vitalidade, bom humor e profissionalismo. Para mim os melhores momentos são os dos Beatles, que ele espertamente reservou para a metade final, e notei que pouca gente conhece a letra de A Day in the Life (que teve estrofe trocada) e outros clássicos da banda; me espantei com a comoção também por músicas da fase solo, como Live or Let Die, acompanhada de foguetório. O script foi o de sempre: alternância de músicas para dançar e para escutar, um momento para cada instrumentista, palavras em português lidas abaixo, até bandeira do Brasil no final - e a ampla adesão do público a qualquer comando ou gracinha do astro. Mas as melodias, ah, as melodias... Aí escuto um disco como o do incensado Foo Fighters, Wasting Light, e me pergunto: daqui a 50 anos, três gerações se juntarão para ouvir essas canções? Não precisa responder.

Atropelando o humanismo. Acabo de criar um perfil no Twitter: @pizadaniel. Algum desocupado manteve um perfil falso até o ano passado, e o único jeito foi criar esse, com meus nomes invertidos, e divulgar que é o verdadeiro. Espero que seja um complemento desta coluna e do blog, com troca de opiniões e informações. Por falar nisso, por indicação de Constanza Pascolato, li um texto de Bill Keller no New York Times doa dia 18, chamado "Twitter trap", com vários pontos em comum com o que tenho escrito aqui. Keller está preocupado com uma geração que tem informação e não contexto, que tem liberdade e não concentração, que tem contatos e não tem convívio.

Por que não me ufano. Quer exemplo maior da mentalidade do poder à brasileira do que o fato de Aldo Rebelo ser o relator do Código Florestal? Ele é do PC do B, nacionalista a ponto de querer farinha de mandioca em pizza, também se envolveu em escândalos e... agora é responsável por uma emenda que tem sido acusada de favorecer os ruralistas e o "agribusiness" mais ambientalmente desmatador. Décio Pignatari tem razão: o Brasil nunca teve surrealismo porque o país mesmo já é surreal. Faltam os escritores que mostrem isso.

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