Arko Datta/Reuters-23/2/2009
Arko Datta/Reuters-23/2/2009

Os dois paladinos da literatura indiana

Amitav Ghosh e Abraham Verghese são best-sellers, mas com muita qualidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2011 | 00h00

Ser um best-seller na Índia não significa necessariamente se render à sintaxe rudimentar ou tratar de temas de fácil digestão. Dois grandes autores indianos, Amitav Ghosh, que mora em Goa, e Abraham Verghese, médico instalado em Nova York, são paladinos que fazem de seus livros plataformas de suas ideias políticas sem negligenciar outros aspectos da criação literária. De Ghosh, principal convidado da Bienal do Livro do Rio, que começa em 1.º de setembro, a editora Alfaguara está lançando o épico Mar de Papoulas, sua obra mais importante, finalista do Man Booker Prize em 2008. De Verghese, a Companhia das Letras lança O 11.º Mandamento, também uma saga que tem em comum com a de Ghosh o fato de tratar de seres em constante deslocamento. Ambos são best-sellers não apenas na Índia como em outros países, inclusive no Brasil. Só nos EUA, a emocionante obra de Verghese vendeu 1 milhão de exemplares. Sobre seus livros, os dois concederam entrevista ao Caderno 2, falando sobre as consequências negativas do supercrescimento dos países emergentes e das vicissitudes da dependência tecnológica.

Amitav Ghosh diz, por exemplo, que a recente catástrofe ambiental ocorrida no Japão não é nada perto do que pode acontecer na Índia, onde as usinas nucleares, segundo o escritor, estão igualmente localizadas em zonas vulneráveis, a exemplo do país atingido em março por um tsunami. Verghese, que é médico, alerta ainda para o perigo tecnológico por trás dos aparelhos computadorizados que realizam exames médicos. Defensor do exame físico, o médico diz que muitos dos seus colegas não têm pudor de expor seus pacientes a uma sobrecarga de radiação apenas por terem perdido a capacidade de avaliar o estado do doente seguindo os velhos e bons métodos do passado. "Tenho observado que o paciente na cama se torna um ícone para o paciente do computador e todos tratam do IPaciente como se ele fosse virtual."

Verghese, nascido em Adis Abeba, Etiópia, de pais indianos, e educado na Índia, diz que seu método não permite sequer saber de antemão o diagnóstico. Seu companheiro é o estetoscópio e seus melhores instrumentos são as mãos, os olhos e os ouvidos. Ele toca, vê e ouve o paciente como se fazia antigamente. Tornou-se um mestre na velha arte do exame físico na Universidade de Stanford, onde transmite a seus alunos as lições aprendidas nos vários hospitais públicos da Índia por onde passou.

Parte dessa experiência foi contada em seu primeiro livro, Minha Terra (1995), em que explora temas como deslocamento e diáspora, retrabalhados pela cineasta Mira Nair num filme para a televisão. Em O 11.º Mandamento, Verghese também trata do assunto, mas sob outra ótica: os deslocados, no caso, são dois gêmeos nascidos em 1954 em Adis Abeba, filhos de uma freira, que morre no parto, e um cirurgião, que some. Unidos pela cabeça no nascimento, eles sobrevivem, são adotados por médicos imigrantes de Madras e, já adultos, acabam se apaixonando pela mesma mulher. A paixão acaba separando os irmãos. Um deles, Marion, vai para os EUA e se refugia em seu trabalho num hospital de Nova York.

O livro de Amitav Ghosh, Mar de Papoulas, é um épico ambientado no século 19. Seus personagens são marinheiros rústicos e consumidores de ópio. O romance, com 536 páginas, é um exercício vigoroso baseado em pesquisa histórica apurada e que deve render ainda dois outros livros. Ghosh narra a jornada dos tripulantes do navio Ibis, embarcação inglesa usada no comércio de ópio com a China. Seus homens parecem ter saído de algum livro de Conrad ou Melville. Entre eles estão oficiais ingleses, escravos libertos, fugitivos e condenados. Zachary Reid, um marinheiro americano mestiço, filho de uma escrava com um branco, recebe mais atenção: ele encontra num jantar a órfã francesa Paulette, que cresceu na Índia.

Ambos os livros receberam excelentes críticas de jornais americanos e ingleses, repetindo o êxito do livro Quem Quer Ser Um Milionário?, do também indiano Vikas Swarup, transformado em filme pelo inglês Danny Boyle e vencedor de oito Oscars em 2008. A foto maior desta página mostra crianças indianas comemorando a vitória. A Índia, afinal, conquista o mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.