Os diversos olhares da crítica moderna sobre um clássico

Artigos do Times Saturday Review e The Spectator que prestavam homenagem ao autor foram destaque na seção Revista das Revistas

Lívio Xavier, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Este ano do centenario da morte de Charles Dickens é ocasião de ser discutida a grande figura. Ainda no Natal passado foram publicados mais um volume da correspondencia do romancista e, em edição de dois tomos, ineditos de Dickens ("Household Words, 1850-59"). Sôbre as cartas agora publicadas (1840-1841), o sr. Richard Holmes em The Times Saturday Review (29 novembro) escreve um vivo comentario. Ao gosto da crítica mais moderna será Dickens um maniqueista que se realiza na variedade, ou um secreto simbolista, ou ainda um existencialista aborrecido? Ainda há os que pensam freudianamente que o sexo em Dickens está em tudo, apenas disfarçado em necessidade de comer. Refere-se o sr. Holmes ao "Dickens" de George Wing, de publicação recente como repositorio e critica de todas essas opiniões. (...)

Mas, ainda assim, o que conclui o sr. Holmes da leitura da correspondencia de Dickens é mesmo que se trata de um esquizofrenico. O sr. Holmes cita uma carta do escritor a um velho amigo, contando que naquela mesma manhã, teve uma crise de choro e a presença da mulher só piorava a situação. E textualmente: "Desprezo os meus pais. Detesto a minha casa". Vai mais longe, no seu delírio de autodestruição, confessando ao amigo pensamentos que vão de atirar-se num canal vizinho ou às patas dos cavalos dos carros que pensam ou, à botica que fornece veneno. Será a verificação do diagnóstico, essa carta a John Forster? Infelizmente não, escreve o sr. Holmes com humor macabro, pois nessa mesma carta confessa Dickens uma paixão incoercivel pela Rainha Victoria, o que se poderia hoje ter como sinal de loucura. Mas os editores da correspondencia de Dickens, depois de ter ocultado cuidadosamente durante muitos anos a carta delirante, publicaram-na visto que descobriram haver o grande homem dirigido cartas semelhantes a outros dois amigos. Dickens brincava apenas, concluiram os entendidos em Dickens.

O sr. Holmes, no entanto, não se desarma por tão pouco e descobre outros sinais alarmantes: caprichos que raiam ao absurdo e ao mesmo tempo, um insaciavel bom humor, grande sentimentalismo, feroz profissionalismo na colheita de material novelesco, absoluta falta de convencimento pessoal mesmo quando foi aclamado aos 29 anos como um novo Shakespeare. (...)

A tendencia à extroversão no paciente Dickens é mais social e literariamente explicada pelo sr. John Holloway em artigo do Spectator de 29 de novembro, sobre os livros de Natal, entre os quais "The Uncollected Writings of C.D." Dickens participa estritamente falando, do frenesi de produtividade característico do seu tempo. (...)

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