Os discretos 70 anos de Luis Fernando Verissimo

Os amigos enumeram elogios, a família prepara uma comemoração discreta e marcante, mas Luis Fernando Verissimo preferia passar em silêncio a data de hoje, quando completa 70 anos. Não por vaidade ou orgulho, mas o avançar da idade (em outras palavras, a velhice) pode significar, com o tempo, uma diminuição no poder criativo. Uma preocupação precoce, pois, no caso de Verissimo, ainda não há nenhum vestígio de queda na criatividade: em novembro, ele lança o romance "A Décima Segunda Noite" (Objetiva), adaptação para a célebre comédia Noite de Reis, de Shakespeare. Além disso, continua com sua colaboração às quintas e aos domingos no Estado e em outros jornais brasileiros. O perfil típico de um jornalista em ascensão aos 70 anos. ?Não sei se estou em ascensão, a impressão é que estou num declive, e sem freio?, comenta ele, no já tradicional tom sério que encobre uma fina ironia. Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, Luis Fernando Verissimo é uma das raras unanimidades positivas do País, como comprova as personalidades ouvidas pela reportagem (veja no quadro).Autor de quase 60 livros que já venderam cinco milhões de exemplares (entre eles, os best sellers O Analista de Bagé e A Comédia da Vida Privada) e de personagens emblemáticos (a Velhinha de Taubaté, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras), o filho do escritor Erico Verissimo só começou a escrever aos 30 anos, depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, inacabadas; de ter tentado o comércio ?só para reforçar o mau jeito da família?; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal gaúcho Zero Hora.O resto é história - em pouco tempo, Verissimo cruzou fronteiras, tornou-se colaborador de programas humorísticos de televisão e rádio, vistos e ouvidos em todo o Brasil. Sua timidez tornou-se outra característica sempre lembrada, reforçando o valor de seu texto: sim, Verissimo sempre buscou ser engraçado na escrita e não na fala. Na verdade, nunca se julgou um humorista. ?Acho que há uma diferença entre ser humorista e fazer humor?, disse, certa vez. ?O humorista é o cara que tem uma visão humorística das coisas. O humor é sua maneira de ver e de ser.?Um filosofia que se revelou útil durante a dura fase de exceção. Veríssimo conta que, durante a ditadura, ele enviava uma crônica para o jornal deixando sempre uma na gaveta, de reserva. ?E não foram poucas as vezes em que saiu a reserva?, comentou, em outra entrevista. ?Os censores pareciam achar o cartum algo infantil; então, era mais fácil fazer passar um cartum político que um texto político.?Autodeclarado um gaúcho desnaturado, por não andar a cavalo, não tomar chimarrão e ter nascido e se criado na cidade, Verissimo vai comemorar hoje com a família, mas não com um festão. ?Em respeito aos meus sentimentos?, justifica.

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