Os dilemas doídos do nosso tempo

Os dilemas doídos do nosso tempo

Herói exibe a sutileza e as configurações diversas com que Wagner Malta Tavares lida com material tão fugaz: o ar

Rodrigo Naves, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

O material de Wagner Malta Tavares na exposição Herói - até 5 de maio no Instituto Tomie Ohtake - talvez seja um dos mais difíceis de formalizar: o vento. No entanto, o artista consegue não apenas dar configurações diversas a esse elemento fugaz como chega a conferir-lhe significações opostas. E acredito que seja justamente a sutileza com que lida com seu material que dá à mostra uma qualidade notável.

O ventilador que infla a capa vermelha de um super-herói nos conduz ao mundo pop, onde a bravura e a coragem se tornaram histórias em quadrinhos. Estamos no reino das imagens todo-poderosas e basta um simples atributo do Super-Homem (a capa vermelha tremulante) para que o conjunto se refaça diante de nós. Esse é o vento da fantasia infanto-juvenil e também das bandeiras enfunadas do patriotismo bélico.

Mais adiante outros ares movem engenhocas irônicas e sem uso. São hélices que acionam outras hélices, num movimento caprichoso e sem sentido. Ao lado, uma asa manca tenta em vão alçar voo. O ar que a faz oscilar tem a intermitência dos amores de novela. Ela não voará. Por todos os cantos sopra um vento forte e ruidoso, potente e inútil. Com humor, Wagner nos faz reexperimentar dilemas doídos do nosso tempo. Afinal, como diz o ditado, não há bons ventos para quem não sabe aonde ir.

No entanto, a exposição não se limita a um desencanto irônico. Nas fotografias e em dois vídeos, os elementos naturais - vento e luz - ganham uma dimensão lírica, de quem reata com o mundo sem as próteses da vida cultural pacificada. Na solidão de uma praia, pequenas velas de pano amarradas a cadeiras pedem uma aventura que, tudo indica, lhes será negada. Agitadas pela brisa, cortinas nos deixam vislumbrar uma paisagem parcial e parecem acentuar os limites da vida entre quatro paredes.

Um dos vídeos mostra uma casa no alto de um monte, com grandes cortinas movidas pelo vento. O outro registra a mesma casa do amanhecer à noite, atento às passagens que se dão entre a iluminação natural e as luzes elétricas da moradia. Dos contrastes marcados e das identidades indiscutíveis passamos a uma realidade mais complexa e matizada. Nela, torna-se difícil separar o sentimento que temos do mundo de sua verdade física, mesmo porque essa é uma realidade que deixou de supor o filtro das imagens massificadas entre ela e os indivíduos.

O sorriso que a mostra desperta advém das sutilezas que ela consegue revelar. O vento que agita capas e bandeiras pode propiciar também um contato ameno com o mundo. A asa manca que insiste inutilmente em voar tem algo dos projetos patéticos e tocantes de todos nós: largar um vício, reatar uma amizade perdida. A conversão da luz ou do vento em símbolos cristalizados diz respeito a uma parcela das possibilidades desses tempos de calmaria: a transformação da realidade em simples imagens do mundo

Parte considerável dos debates artísticos de nossos dias tende a criar polaridades rígidas entre a subjetividade moderna e a poética "cool" de setores consideráveis da arte contemporânea. Wagner Malta Tavares resolveu pôr à prova essas fronteiras. A câmera fixa, inexpressiva, que registra as lentas variações de luz e os suaves movimentos do vento está apta a confirmar as identidades preguiçosas que a indústria cultural proporciona. Ao mesmo tempo em que refina seus recursos para discriminar as mais sutis variações. Afinal, a felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar...

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