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Os diferentes de mim (2)

Só sei que gente parecida comigo me interessa cada vez menos

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 02h09

Na tal biblioteca pública onde centenas de pessoas passam algumas horas de suas semanas, há uma varanda bem grande com vista para o gramado. Nessa varanda, as solidões dos estudiosos acabam por se encontrar, sobretudo na hora do almoço. Não quero dizer que suas solidões cheguem a interagir nessas ocasiões, elas apenas convivem, cada uma com a sua marmita, seus trejeitos e interesses. 

Era uma quinta-feira ensolarada, porém fresca, na qual somente duas ou três nuvens e algumas gaivotas desnorteadas estampavam o céu azul. Perto das 13 horas, as seis mesas da varanda estavam ocupadas pelas seguintes solidões.

Na primeira mesa estava um homem de cerca de 50 anos com um cabelo grisalho enrolado, comprido e completamente desordenado, como só os artistas têm. Presumi que ele fosse músico, talvez um maestro, daqueles tão geniais quanto malucos. Seu almoço era tão bagunçado como o cabelo: maçã, sardinha na lata, pão preto, queijo amarelo e peito de frango, tudo ao mesmo tempo em potes coloridos que repousavam sobre a mesa.

Na mesa ao lado estava um(a) chinês(a). Uma daquelas pessoas muito, muito modernas, com um cabelo curtinho, óculos redondos, uma roupa preta larga que realmente não nos permite saber se é saia ou calça, se é homem ou mulher e que nos dá, de certa forma, um grande alívio por não nos informar absolutamente nada. Uma verdadeira trégua. A pessoa fumava um cigarro e quebrava a casca de um único ovo cozido na mesa de metal.

A terceira mesa era ocupada por dois amigos bem jovens evidentemente gays, que provavelmente estavam fazendo um complexo trabalho para a faculdade de design ou algo do gênero. Comiam sanduíches e wraps, enquanto brilhavam, reluzentes e alegres, com suas peças de roupas coloridas, tão bem escolhidas.

Na quarta mesa uma freira negra, provavelmente angolana, de pouco mais de 30 anos, com um ar simpático e bochechas fartas, comia arroz com frango numa vasilha amarela muito pequena e folheava três livros de psicologia. Uma cena inusitada, porém agradável. Dava vontade de continuar olhando, se não fosse invasivo.

Na quinta mesa, um rapaz forte de 20 e alguns anos, que não deveria falhar um único dia de academia, fazia cálculos complexos com sua calculadora – que tinha quase o tamanho de uma caixa de sapatos – enquanto bebia um daqueles estranhos shakes que, em tese, podem substituir algumas das refeições. Coitadinho.

Na sexta mesa, eu. Eu, com minha beterraba aos cubos num potinho, com meus raviólis orgânicos em outro, uma garrafinha com água fresca, roupa preta, óculos e sapatos verdes, unhas cor-de-rosa, livros sobre o impacto da globalização na economia do trabalho e os olhos incansavelmente atentos.

Achei curioso perceber que quanto mais o tempo passa, mais eu gosto de estar em lugares nos quais as pessoas são tão diferentes de mim. Trata-se de uma estranha afeição por aqueles que não têm quase nenhuma semelhança comigo. Tento entender.

Na faculdade de direito, olho para aqueles meus supostos semelhantes, me comparo e sempre acabo por me sentir inadequada – minha roupa não é tão bonita quanto a dos outros, minha bolsa não é tão chique, meus livros e minhas conversas não são tão sóbrios e monotemáticos quanto parece que deveriam ser por ali.

Já naquela varanda de biblioteca pública, eu me sentia absolutamente confortável no meio de tanta diferença. Parece que eu tinha mais direito de ser eu mesma e menos obrigação de me adequar. Talvez, no fundo, a diferença aproxime bem mais do que a semelhança. Só sei que gente parecida comigo me interessa cada vez menos. Nada contra eu mesma, só estou mesmo contente com a companhia do músico cabeludo, do chinês andrógino, dos gays desruptivos, da freira angolana e do fortão de exatas. Eles fazem com que eu me sinta em casa.

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