Os deuses do rock são insuperáveis

David Bowie, Black Sabbath, Led Zeppelin e Neil Young concorrem na categoria melhor disco do gênero... em 2014

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h10

A categoria melhor disco de rock de 2013 traz um subtítulo nas entrelinhas de seus indicados: o melhor disco de rock de 2013 foi feito em algum estúdio do século passado. A premiação maior da indústria da música norte-americana, o Grammy, vai à terra dos gigantes na noite de hoje, a partir das 23h, para faze uma escolha difícil.

Mesmo o que seria uma exceção natural no grupo, o stoner rock do Queens of the Stone Age molhou os pés nos anos 70 quando recebeu Elton John, a pedido do próprio, para fazer o piano de Fairweather Friends, do apurado álbum ...Like Clockwork. Apenas isso. Por uma questão de linguagem, a banda de Josh Homme nem poderia ir além. Mas seus pares estão curiosamente enfileirados em um Grammy que, dentre seis concorrentes, quatro são espécies raras de Tiranossauro Rex, um é filhote de country rock com o southern rock da década de 1970 e apenas o último, o Queens, habita um ponto mais recente na linha evolutiva do gênero. Se for levado em consideração para medir a temperatura da Terra, o Grammy indica que rock bom é rock antigo.

E antigo não é velho. O Black Sabbath veio com 13, o primeiro álbum desde 1978 com a formação original do grupo, exceto pelo baterista original que não quis participar do projeto, Bill Ward. Ozzy Osbourne mais Tony Iommi, Geezer Buther e o baterista Brad Wilk, vigorosos e sem o Viagra dos três guitarristas de apoio tomado por bandas como Guns N'Roses, assombraram os que apostaram na deterioração do grupo. O Sabbath fez shows pelo mundo com uma música nova e vibrante - um deles no Campo de Marte, em São Paulo - e venceu a aposta contra o tempo. Mesmo sem mais seguir sua dieta de aves vivas no palco, Ozzy sustentou agudos monumentais e abusou de seu poder cênico como se tivesse 20 anos.

Led Zeppelin e David Bowie habitam os dois lados de uma moeda que o Grammy jogou para cima. Escolher entre as importâncias de um e outro é como tirar no par ou ímpar. O primeiro não existe mais, mas tem força para fazer uma indústria inteira girar pelo simples fato de reunir seus integrantes, chamando Jason Bohan para empunhar as baquetas do pai John, morto em setembro de 1980, e tirar um som exatamente como nos velhos tempos. Celebration Day é isso, com o detalhe de estar a banda diante de 18 mil espectador do O2 Arena, em Londres. Já Bowie, um urso capaz de hibernar por dez invernos e sair transbordando de ideias, existe, está vivo e é capaz de fazer de seu passado um presente inédito.

O desjejum de David Bowie, depois de dez anos na seca, foi um prato servido aos fãs em uma manhã de outubro 2013. The Next Day buscou nos anos 70, sobretudo em álbuns como Heroes e Ziggy Stardust e na estada berlinense de Bowie na segunda metade desta década, o som seco, agressivo ou melodioso, mas irremediavelmente setentista. Aos 66 anos, com um coração que tentou entregar os pontos em 2004, ele assinou as 14 músicas e fez o disco que a crítica considerou "um dos maiores retornos da história do rock".

Neil Young faz o velho rock renovado, e o Kings of Leon, o novo rock envelhecido. Psychedelic Pill é um épico de 87 minutos de baladas e viagens sujas de Young e seus escudeiros do Crazy Horse. Driftin' Back, Ramada Inn, Twisted Road, Born in Ontario - canções que refletem o passado, analisam o presente e contestam o futuro - um futuro que o Kings Of Leon mostra ser nada mais do que o regresso às origens.

Se ganhar o Grammy, Mechanical Bull, dos Leons, entra para a história e coloca os jurados na lista dos procurados vivos ou mortos. Sua vitória, no entanto, não seria a supremacia do novo sobre o consagrado. Seu álbum é considerado pelos críticos como a volta do grupo, adivinhe para onde? Para os anos 70.

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