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Os desmemoriados

Somos a geração com mais suportes de memória e que não lembra de nada, afogados em nossos celulares que demandam tudo e nos oferecem uma vida com amnésia digital

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2019 | 02h00

Dia desses meu celular me avisou: memória cheia. Tive que carregar na nuvem parte das fotos e vídeos, descarregar muitos textos e aulas no HD físico de meu computador portátil. O mesmo smartphone que sofre com excesso de informações consumindo sua memória me alerta, todos os dias, para o uso da bateria, que se esvazia. Pus-me a pensar sobre como o aparelho é uma metáfora ou, talvez mais propriamente, um sintoma do que vivemos. Vivemos cheios de memória e nos arrastamos, sem muita energia, procurando uma fonte que nos recarregue.

O problema da memória sempre me fascinou. Em nossa história primitiva, não havia suporte para a memória. Existia, apenas, a tradição oral, os saberes passados de geração em geração. Quando morria um ancião, morria uma fonte de memória. Conhecimentos não transmitidos poderiam se perder. A carga do que podíamos aprender era limitada a nossa capacidade de memorizar e reinventar dados e narrativas.

Os antigos, ao inventarem os diversos alfabetos, criaram poderosos mecanismos de suporte para aquilo que antes encontrava o limite de nossas sinapses. A escrita abriu a memória, pois em papel, papiro, pedra ou couro, podíamos anotar nossos conhecimentos, impressões do mundo, histórias, ciências e deuses. 

Um universo de expansão da memória estava potencialmente em nossas mãos. Mas estava restrito a uma minúscula camada das sociedades que dominavam essa técnica preciosa. No Egito, escriba era profissão que se passava de pai para filho. Saber ler era segredo de Estado, de religiões. Ler era fonte de poder. Alheio à mágica da palavra registrada, o mundo continuou profundamente dependendo da memória possível de nossos cérebros.

Criamos palácios da memória, formas e técnicas de adestrar nossa capacidade de guardar informações e mobilizá-las quando necessário. Tutores gregos e romanos exigiam que seus pupilos decorassem longos trechos de poesias. O máximo que se tinha era o auxílio de um antepassado do caderno, feito de tábuas de madeira com cera, sobre a qual, por meio de um estilete, tomavam-se algumas notas. Memorizadas, a cera era raspada, apagando-se a informação anterior. Tábula rasa é expressão usada até hoje.

Acreditavam os antigos que a memória dependia do músculo cardíaco e saber algo de cor (em inglês, by heart; em francês, par cœur) manteve algo dessa crença.

A popularização da escrita foi lenta e sua massificação é muito recente. Continuávamos dependendo da nossa própria memória. A imprensa foi um enorme impulso e, com essa máquina, revoluções ocorreram. A ciência se expandiu sobre moldes matemáticos, conhecimentos de todo o mundo passaram a circular com maior rapidez. Iniciavam-se os tempos modernos. Por outro lado, manteve-se certo caráter sagrado da palavra escrita. Pessoas carregavam pedaços de oração ou bendizeres como amuletos de proteção. A pílula de Frei Galvão tem lastro nessa transição do medieval para o moderno.

Quando as revoluções midiáticas explodiram no século 19 e, com potência inaudita, no 20, a memória começou a se divorciar de nossos cérebros. Telégrafo, telefone, cinema, TV, rádio. A quantidade de informação circulando, que já não caberia numa única cabeça humana, nem na mais treinada delas, superava a soma de todas as nossas cabeças juntas.

Os cientistas que estudam fluxo de informações pensam que os intervalos geracionais quase intransponíveis entre avós e netos se devem ao fato de que, em duas gerações, a quantidade de informação entre eles cresceu de forma vertiginosa. Se alguém, jovem ou mais velho, deixa de acompanhar o mundo, por opção ou por falta dela, é atropelado por ele. A escola transmite todo o conhecimento acumulado em milênios de humanidade em 25 anos, da alfabetização ao fim de uma graduação. Enquanto realiza esse processo, mais e mais informação foi criada. O processo não tem fim. Nossa pobre memória vive cheia, inundada, açodada. E não temos nuvem, backup ou HD externo.

Dependemos de nós mesmos, de uma única e maravilhosa ferramenta evolutiva: o cérebro. Não à toa temos a sensação de cansaço, de que nossas baterias estão no fim. Antes da hora do almoço, já não há energia para o resto do dia. Enquanto isso, lá vem o celular avisar que mais informações foram carregadas e que você precisa ver todas elas.

No Egito, o deus da escrita é Toth, com cabeça de babuíno ou do pássaro íbis. Quando ele deu aos homens o código para registrar tudo em papiros, lançou uma advertência: “Tudo o que vocês escreverem esquecerão”. Sim, no momento em que a memória encontra um suporte e o cérebro ganha um auxílio, parece que a praga divina do Nilo acontece. Ninguém mais sabe números de celulares, pois estão escritos. Advertência sábia da entidade divina.

Somos a geração com mais suportes de memória e que não lembra de nada, afogados em nossos celulares que demandam tudo e nos oferecem uma vida com amnésia digital. Milhões de terabytes flutuando ao nosso redor, milhares de tomadas e cabos, centenas de recursos, muitos aparelhos e... não conseguimos mais lembrar de um simples aniversário importante se nossa rede social não advertir com ênfase. A praga de Toth é total. Somos precoces desmemoriados. É preciso ter esperança, e alguma memória. 

 

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