Os deslocados de Bortolotto

Dramaturgo traz a São Paulo a peça que estreou no Festival de Curitiba e em que participa também como ator

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Pode-se gostar ou não do teatro de Mario Bortolotto, mas não se pode negar sua singularidade. Sua obra - são mais de 30 peças - pode ser lida como a crônica de seu tempo, retrato do comportamento não de gente "descolada", mas dos deslocados, de uma gente inadequada, sem elos trabalhistas ou familiares, outsiders.

Não é diferente com os personagens de Música para Ninar Dinossauros, que inicia hoje temporada no Espaço Parlapatões. Nessa peça, o autor flagra um trio de amigos aos 20 e aos 40 anos, em cenas em que as épocas se alternam, mas a situação é a mesma: eles bebem e se drogam com garotas de programa. O escritor Lourenço Mutarelli e o músico Paulo de Tharso e Bortolotto interpretam o trio aos 40, na montagem que tem direção de Bortolotto. Há ainda três atores no papel dos jovens e seis atrizes, no mesmo contraponto temporal.

Na definição de Bortolotto, a montagem retrata uma geração perdida, que nasceu na década de 60 e cresceu na década de 70. Quando essa turma se deu por gente já tinha perdido as grandes revoluções comportamentais, a festa da liberdade. Na verdade, muitos jovens nascidos na mesma época não tiveram qualquer dificuldade em assumir os valores caros à década de 80, tempos da ascensão yuppie, da chegada dos shoppings ao Brasil e dos condomínios fechados.

Não é o caso de Bortolotto e seus personagens. Sem canais para expressar sua rebeldia, eles vivem numa espécie de limbo. Incapazes de trocar afeto em condição de igualdade, contratam prostitutas com a desculpa de que com elas é só sexo. É o que menos fazem. Querem mesmo companhia e agem em contradição com o que dizem. É preciso ver além do que dizem."Eles são solitários. Falam mal das mulheres, mas é só defesa", explica Bortolotto. E para quem ainda confunde o autor com suas criaturas ele enfatiza: "Eu não concordo com tudo o que esses caras falam. Se eu só criasse personagens que pensam como eu minhas peças ficariam muito chatas."

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