Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Os descendentes

Jesuítas eram embaixadores de Roma, homens de negócios influentes no Vaticano

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 03h00

José de Anchieta não era santo, apesar de beatificado em 1980. Protegia os índios, traduziu-os, mas foi um dos primeiros a “importar” negros escravizados, que foram traficados por jesuítas de Angola e entregues ao superior e provincial da ordem do Colégio da Bahia, Anchieta. 

Seu amigo Miguel Garcia foi mandado de volta para a Espanha pelos superiores, depois que escreveu para Roma protestando contra a conversão de missionários ao escravismo: “A multidão de escravos que tem a Companhia de Jesus nesta Província, particularmente neste Colégio, é coisa que de maneira nenhuma posso tragar”.

“Anchieta protegia os índios e benzia a escravidão dos negros. Para ele, o cativeiro dos últimos livrava os primeiros da exploração colonial. Depois, o padre Antônio Vieira completou a justificação jesuítica do tráfico negreiro, afirmando que o escravismo também salvava os africanos do paganismo”, escreveu Luiz Felipe de Alencastro.

Jesuítas eram embaixadores de Roma, homens de negócios influentes no Vaticano. Construíram o maior empreendimento agropecuário do século 18, a Fazenda Santa Cruz, no Estado do Rio de Janeiro. Na enxada e ponta de chicote, mais de mil escravos. Era considerada a maior propriedade escravista. 

A Rodovia Anchieta liga Santos a São Paulo, cidade em que da ponte Eusébio Mattoso, abolicionista, ministro da Justiça responsável pela proibição do tráfico negreiro em 1850, pega-se a Rodovia Raposo Tavares, bandeirante que escapou da prisão, por fazer expedições ilegais com um imenso tráfico de escravizados indígenas, que vendia. 

Partiu em 1628 para o Paraná com um Exército de três mil homens, chegou a aprisionar em torno de 100 mil indígenas. Pilhava o que encontrava, inclusive aldeamentos. Cruzou Santa Catarina até Mato Grosso. Capturava escravos negros fugitivos. Assaltou igrejas jesuítas, decepou mãos de padres, zombou da Justiça, chegou ao sertão dos tapes, Rio Grande do Sul, atacou e arrasou a reserva de Jesus Mariauí, fazendo prisioneiros que seriam escravizados. Depois, atacou a aldeamento de San Cristóbal e tomou o aldeamento de Santana. Chegou até o Amazonas, onde atacou mais aldeamentos. 

A Marginal do Tietê é a Avenida Presidente Castelo Branco, o primeiro ditador do Golpe de 64, general que deu aval para a deposição do governo eleito e virou presidente por conta de uma eleição indireta estabelecida pelo AI-1, que suspendeu por dez anos direitos políticos de cidadãos considerados opositores. Período com prisões, morte, tortura e expulsão do País de brasileiros. 

Castelo cassou Juscelino, que apoiara o Golpe, e através do AI-2 e AI-3 cancelou as eleições, fechou o Congresso, interveio nos Estados e extinguiu os partidos e a Constituição em vigor. 

Por ela, chega-se à Dutra, estrada em homenagem ao general Eurico Gaspar Dutra, ministro de Guerra de Getúlio Vargas, com quem instaurou a ditadura do Estado Novo, militar que tinha simpatias pelos alemães e foi contra o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos na Segunda Guerra. 

Nela, pega-se a Rodovia Fernão Dias, bandeirante que aprendeu tudo com Tavares, aprisionou mais de quatro mil indígenas só na primeira investida, que vendeu num entreposto às margens do Rio Tietê. Junto com Borba Gato, subiu até Minas Gerais, afanou ouro e pedras preciosas descobertas por lá, inclusive por escravos fugitivos. 

Anos depois, na sangrenta Guerra dos Emboabas, paulistas liderados por Borba Gato seriam expulsos da futura Capitania de Minas Gerais.

Estrada dos Bandeirantes segue paralela à Anhanguera, alcunha de Bartolomeu Bueno da Silva, bandeirante acusado de sonegação de impostos em 1733 e suspeita de contrabando de ouro trazido ilegalmente de Goiás. 

A Rodovia dos Imigrantes liga São Paulo à Baixada Santista. Representa a chegada de imigrantes europeus que vieram para substituir a mão de obra escrava. Representação simbólica, pois a maioria subia a serra de trem e fazia quarentena na Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca.

Só saía de lá quem estava empregado. Muitos foram enganados, achavam que tinham chegado aos Estados Unidos ou à Argentina. Eram levados por grandes agricultores para fazendas. Minha avó, com 4 anos, veio de Modena para colher algodão em Itu. Meu avô veio de Polignano a Mare e carregou sacos de cereais no Mercadão.

Ao menos, sabiam de onde vinham. Têm registros deles na Hospedaria, hoje museu. Muitos sabiam até o nome do navio. Descendentes de africanos não têm ideia de onde vieram os antepassados, Gana, Angola, Moçambique?

Foram arrancados de suas aldeias milenares e transportados amarrados em fundo de canoas por rios da África. Ficaram no porão num dos mais de 30 fortes na Costa do Ouro dormindo no chão. Depois, embarcados acorrentados em navios negreiros com nomes de santo. 

Em 40 dias estavam no Brasil, leiloados e marcados a ferro. Se para a extração de ouro, caminhavam a pé e descalços por semanas. Um pelourinho ou tronco os aguardava para chibatadas. Assim como os indígenas, viram suas filhas, mães e mulheres estupradas. 

Se alguém tem que decidir o que fazer com monumentos e homenagens a escravagistas, são os descendentes.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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