Denise Andrade/Divulgação
Denise Andrade/Divulgação

Os desafios do novo secretário de Cultura

Profissionais apontam caminhos para Marcelo Araujo, titular da Secretaria de Estado da Cultura

CAMILA MOLINA E FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h10

O meio cultural de São Paulo, embora esperançoso, encara com ceticismo os desafios que serão enfrentados pelo novo secretário estadual de Cultura de São Paulo, Marcelo Araujo. "É preciso ter sensibilidade e competência suficientes para levar adiante a revolução cultural anunciada para São Paulo e até agora não vista", diz o curador-coordenador do Masp, Teixeira Coelho. Ainda diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Araujo foi anunciado segunda-feira no cargo e, desde então, o Estado ouviu profissionais do meio cultural sobre a escolha do advogado e museólogo para a função.

À frente da Pinacoteca desde 2002, depois de também ter dirigido o Museu Lasar Segall, Araujo substitui Andrea Matarazzo, que decidiu se desligar do cargo para tentar concorrer a algum posto nas próximas eleições municipais. Sua posse depende do processo de definição de um novo nome para a direção da Pinacoteca, uma das instituições museológicas mais importantes do Brasil.

"Ele é dos poucos gestores culturais no País focado em projeto e política cultural com perspectiva de legado e perenidade e não no caráter de realizador de eventos", diz o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron. "Seu desafio é promover o diálogo dos espaços e da produção cultural, desde a periferia de São Paulo até os municípios do Estado."

O diretor do Itaú Cultural, no entanto, ressalta um problema atual do órgão estadual: "A equipe da secretaria é boa, mas precisa de mais gente. Araujo precisa garantir profissionais e também pensar em como qualificar os gestores para essa ampliação". E questiona: "As organizações sociais são ágeis e eficientes, mas e os colaboradores efetivos do Estado?"

Teixeira Coelho preferiu fazer "uma observação restrita", sobre "a dívida forte a resgatar na área dos incentivos à cultura, cuja experiência tem sido até agora muito amarga". "As pessoas que estão tentando o Proac (Programa Estadual de Apoio à Cultura) tem tido experiências horríveis. A secretaria tem um duplo aspecto, um programa interno estadual e articulações com instituições (sendo públicas, não são estatais) e produtores independentes. Tem sido uma experiência negativa, até agora, a relação de terceiros com a secretaria", diz o curador do Masp e autor de Dicionário Crítico de Política Cultural (Iluminuras). "Todo sistema cultural depende do Estado mas também, e muito mais, da sociedade civil e da iniciativa privada."

Já Tadeu Chiarelli, diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, que tem sua nova sede no ex-prédio do Detran, com reforma realizada pela Secretaria de Estado da Cultura, diz que o interessante em Marcelo Araujo é "sua visão ampla de ação cultural, não só em museu". "Trabalhei na secretaria nos anos 80 e na época havia o projeto de detectar as potencialidades das várias regiões de São Paulo. Não era uma atividade que se impunha do centro para o interior, mas com o intuito de ouvir as demandas. Não sei até que medida isso permanece. O Estado cresceu muito nos últimos anos e grande parte da população está à margem", afirma Chiarelli.

Jeferson De, diretor de filmes como Bróder, também está atento às periferias e acredita que o grande desafio de Araujo, é fazer a valer a palavra diversidade, seja na formação (que continua tão carente), quanto na produção e divulgação artística no estado. "Hoje, mais do que em qualquer período de nossa história recente, as periferias estão produzindo intensamente e em muitos casos sem nenhum aporte do estado. Cabe ao novo secretário ter um olhar especial nestes casos e atitudes concretas."

Já o produtor LG Tubaldini Jr., da Filmland, que assina produções para o cinema como Qualquer Gato Vira-Lata, que fez mais de 1, 2 milhões de espectadores, e teatro (Toc Toc, com mais de 350 mil), acredita que o maior desafio da secretaria de cultura de São Paulo é fortalecer a economia criativa. "Em todas as áreas, equilibrar a relação entre a produção autoral e a comercial é crucial. É preciso criar mais mecanismos efetivos de produção Só assim teremos de fato uma economia criativa e uma indústria cultural sólida."

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