Os contos da era nada dourada de Ceausescu

Longa idealizado por Christian Mungiu revê a Romênia de 1980

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Ocorreu com Contos da Era Dourada um fenômeno curioso, quando o filme foi projetado no Festival de Cannes, em maio. O filme estreia hoje com seis episódios no Brasil, mas no festival foram apresentados somente cinco, e a ordem variava, de acordo com as diferentes cópias, apresentadas nas diferentes sessões. Como todo filme em esquetes, foi considerado irregular, mas o mesmo sem pode dizer de 5 Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos, sem invalidar nenhum dos episódios da produção brasileira (nem da romena).

Cinéfilo que se preze sabe que a Romênia, nos últimos anos, se transformou numa força importante do cinema europeu, com direito a Palma de Ouro (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), Caméra d"Or (12:08 Leste de Bucareste) e prêmio da crítica (A Morte do Sr. Lazarescu) em Cannes. Todo esse prestígio é posterior à era em que o todo-poderoso Nicolae Ceausescu governava o país, com o aval do Partido Comunista (e de Moscou). Na era pós-Ceausescu, o cinema tem se prestado ao papel de investigar/denunciar o que foi o totalitarismo comunista na Romênia. É o propósito que anima o filme que agora estreia.

Christian Mungiu, que recebeu a Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, assina um dos episódios - além de ter sido o principal artífice da produção. Ele também escreveu os roteiros, que entregou a Hanno Hofer, Constantin Popescu, Ioana Uricaru e Razvan Marculescu. Todas as histórias tratam de lendas urbanas do período que os próprios romenos, imbuídos da propaganda oficial, definiam como sua era de ouro. A época era de dificuldade. Burocracia, repressão policial, falta de perspectivas, crise financeira, desabastecimento. Como acreditar numa era dourada, com handicap tão negativo?

Pois os romenos acreditavam e Mungiu e seus colegas diretores se valem agora de uma fina ironia para permear os contos da era dourada. Todos têm "lenda" nos respectivos títulos - A Lenda da Visita Oficial, A Lenda do Fotógrafo Oficial, A Lenda do Policial Ganancioso, A Lenda dos Vendedores de Ar, A Lenda do Condutor de Galinhas e A Lenda do Ativista Zeloso. Nenhum dos materiais escritos do filme estabelece a direção por episódios. Como são cinco diretores e seis esquetes, pode-se presumir que alguém (Mungiu?) dirigiu dois.

A soma de todos revela aquilo que se poderia chamar de "jeitinho romeno", a fórmula não necessariamente de se dar bem, mas de sobreviver em tempos difíceis. Quase todos os personagens são (pequenos) golpistas. Os vendedores de ar iludem os moradores de um condomínio vendendo amostras de ar contaminado para um possível processo; o condutor une-se à dona de um restaurante de estrada para desviar os ovos que as galinhas põem durante a viagem para o porto; o policial ganancioso vive verdadeiro inferno quando o cunhado lhe traz, ainda vivo, o porco que encomendou para uma festa; o ativista zeloso lidera campanha para erradicar o analfabetismo e tromba com pastor birrento; o fotógrafo oficial (são dois) encara o desafio de adulterar uma foto para servir a fins publicitários.

Como fazer para que o presidente Ceausescu não pareça mais baixo, como realmente era, do que seu colega francês Valéry Giscard d"Estaing, em visita à Romênia? Talvez nenhum outro conto exponha tanto a manipulação que caracterizava a era Ceausescu. Nesse quadro derrisório, o humor vira arma, mas os diretores, mesmo quando criticam e expõem o ridículo das pessoas, não se furtam a resgatar sua humanidade. Em Cannes, muitos críticos usaram o termo "compaixão" para definir o mundo - e os personagens e as pequenas misérias - que foi enterrado com a era Ceausescu. O interessante é que, independentemente de "qualidade", as histórias desses "contos" fecham com as dos filmes longos que colocaram a Romênia no mapa de Cannes.

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