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Lúcia Guimarães
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Os conformistas

No sábado, ouvi no Rio a preocupação da mãe de um bebê que desde a gravidez tinha escolhido a escola particular para sua filha. Ela ficou sabendo que, este ano, só cerca de quatro por cento dos candidatos vão encontrar vagas no maternal da dita escola. Imagine quando chegar a nossa vez, ela comentou. Entre um punhado de escolas prestigiadas, essa tem a mensalidade mais suportável para uma família de classe média alta.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2014 | 02h08

O diálogo me remeteu a um livro que saiu há pouco nos Estados Unidos. Excellent Sheep (Ovelhas Excelentes), de William Deresiewicz, é uma denúncia contra a educação no conjunto de universidades de elite considerado o melhor do mundo. O autor lamenta o sistema que exerce pressão tão cedo. É um sistema que despeja no mercado de trabalho mais da metade dos graduados em apenas quatro profissões: finanças, consultoria, advocacia e medicina. O declínio do estudo de humanidades já é conhecido, mas o estreitamento agora se estende também a geologia, química, física, numa tendência que vai ter consequências para o futuro do país.

Fico sabendo que só o programa Ciência Sem Fronteiras mandou 26 mil estudantes brasileiros para universidades americanas. Fazer pós-graduação numa escola de prestígio nos Estados Unidos é o equivalente educacional a comprar qualquer modelo numa concessionária Jaguar. A marca "curso superior nos EUA" é garantia de atenção a qualquer currículo, seja em São Paulo ou Beirute.

Até o meio do século 20, a educação universitária de alta qualidade era província predominante da elite americana. Mas era uma elite, gente como Franklin Roosevelt, que temperava seu privilégio com valores como honra, perseverança na adversidade e senso de dever, lembra Deresiewicz. A deposição da velha aristocracia não implica descartar esses valores como ruins para uma elite. A panelinha privilegiada foi substituída pela meritocracia, e quem haveria de condenar a mudança? Mas, a caminho da democratização do ensino superior, os que ocupam o topo da pirâmide econômica conseguiram manter seu acesso privilegiado à educação superior numa combinação perversa do investimento que começa no útero com a queda vertiginosa do investimento nas universidades públicas estaduais.

William Deresiewicz sabe do que está falando. Ele é pós-graduado pela Columbia e foi professor de inglês em Yale até 2008. Durante um dia, fez parte do comitê de admissões e saiu deprimido com as parcas chances de um estudante inteligente, talentoso e desfavorecido passar pelo buraco da agulha seletiva. Seis atividades extracurriculares não bastavam para impressionar o comitê. Os candidatos fortes tinham doze. Tinham também pais ricos que fariam doações para o endowment da escola.

Harvard acaba de ganhar de presente US$ 300 milhões de um só ex-aluno, um bilionário chinês. Quanto à diversidade e às quotas raciais, Deresiewicz diz que não resolvem o problema de discriminação por classe. O resultado desta corrida onde as cartas já são lançadas na infância, diz o ex-professor, são alunos como o que disse a ele em Yale: "É difícil preservar minha alma quando todos à minha volta estão tentando vender a sua." É uma elite política e econômica de ovelhas excelentes.

Deresiewicz não despreza a óbvia preocupação com o sustento, mas pede um sistema educacional que estimule curiosidade intelectual. Uma educação para construir o adulto, não a figura mais atraente para os recrutadores de Wall Street que aparecem no câmpus.

E, por falar em Wall Street, em janeiro deste ano, David Rubenstein, cofundador de um dos maiores fundos de capital privado do mundo, ofereceu no Fórum Econômico mundial a equação que define as chances de sucesso no seu mundo: H=MC - Humanities equals More Cash (Humanidades é igual a mais dinheiro). O que ele procura é a capacidade de pensar. A carreira específica se constrói depois.

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