Os concertos do outro grande Bach

Disco recupera gravação feita pelo brasileiro Antonio Meneses de peças para violoncelo do filho do compositor

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2014 | 02h08

Se você pensa que era a Johann Sebastian que se referiam os que falavam do "grande Bach" na segunda metade do século 18, está errado. O grande Bach da época era seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel. Depois de trabalhar por 25 anos como cravista pessoal do rei flautista Frederico, o Grande da Prússia, ele sucedeu em 1767 a Telemann na direção da música em Hamburgo, onde atuou até a morte em 1788, aos 74 anos. Escreveu o tratado mais importante para instrumentos de teclado daquele século, uma espécie de manifesto do pré-classicismo e prefiguração da música que explodiria em Viena entre 1780 e 1820, comandado pela trinca de ouro Haydn-Mozart-Beethoven. Ele foi um compositor quase tão prolífico quanto o pai, seu único professor de música. Em Hamburgo, comandava mais de 200 concertos anualmente nas cinco igrejas locais. Em seu período na corte de Frederico, compôs em ritmo intenso: mais de 200 sonatas para teclado, cerca de 50 concertos para instrumentos diversos, canções, 20 paixões, várias sinfonias, cantatas e oratórios.

O compositor que o mundo inteiro vai celebrar em 2014 é com certeza Richard Strauss, que nasceu 150 anos atrás. Mas provavelmente haverá algum espaço e programação destinados a Carl Philipp Emanuel Bach a propósito de seus 300 anos de nascimento, no dia 8 de março de 1714. Carl Philipp puxa a fila das efemérides menores deste ano, que incluem ainda os 300 anos de Gluck e os 250 anos de morte de Rameau. Entre os brasileiros, temos o centenário de nascimento de Guerra-Peixe e os 100 anos da morte de Glauco Velásquez, além dos 150 de nascimento de Alberto Nepomuceno.

O brasileiro Antonio Meneses abre o cordão dos tributos ao "grande Bach" da segunda metade do século 18 com um belo CD com três concertos para violoncelo, liderando a Orquestra de Câmara de Munique. Na verdade, é um relançamento: o disco já foi distribuído pelo selo suíço Pan Classics em 1998.

Meneses comanda e sola a excelente orquestra de câmara alemã num momento particularmente luminoso de sua carreira, a julgar pelo brilho e ousadia de seu toque. Antonio criou ele mesmo, por exemplo, as cadências do concerto WQ 171, em si bemol maior - um comportamento que deveria ser regra, mas infelizmente é exceção no engessado mundo dos solistas atuais, que em geral limitam-se a reproduzir cadências consagradas ou pelo compositor-intérprete ou então por virtuoses do século 19.

Estes três concertos - WQ 170, 171 e 172 - foram compostos nos anos 1750, quando Carl Philipp estava a serviço de Frederico, o Grande. Neles convivem uma estrutura ainda barroca com uma fatura já bem próxima do classicismo. Ou seja, ainda relembram o estilo barroco mas já apresentam uma retórica inovadora, apaixonada e emotiva. Bach introduz elementos de surpresa, como pausas inesperadas, bruscos contrastes de dinâmica e cromatismos expressivos. Ele mesmo escreveu que a música precisa, acima de tudo, "saber tocar o coração". A expressão está em seu tratado sobre a maneira de se tocar instrumentos de teclado. Ele vai mais longe: "O músico não consegue emocionar os outros sem se emocionar ele mesmo, o que significa que precisa ser capaz de se emocionar para tocar seu público".

Bela receita, que Antonio Meneses pratica comandando do violoncelo os excelentes músicos da Orquestra de Câmara de Munique. A vivacidade e a emoção estão ali, como, aliás, na melhor gravação já feita destas obras, por Anner Bylsma, nos anos 1990, ao lado da Orquestra do Iluminismo, liderada do cravo pelo magnífico Gustav Leonhardt. Bylsma permanece paradigma, mas Antonio faz uma leitura muito bonita e extrovertida destes concertos que deveriam frequentar mais as estantes dos violoncelistas.

ANTONIO MENESES

C.P.E BACH: CELLO CONCERTOS

PAN CLASSICS, US$ 11

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