Os Coens fazem jus à grande mitologia do Oeste americano

Menos que um remake do filme de 1969, Bravura Indômita, dos irmãos Coen, é uma leitura mais cerrada, mais rente ao texto do romance de Charles Portis, publicado em 1968.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Basicamente, trata-se da mesma história filmada por Hathaway em 1969, um ano apenas após o lançamento do livro. Mas há diferenças importantes, em especial no epílogo, quando os Coens aproveitam de forma cinematográfica as excepcionais qualidades do texto de Portis.

Críticos espertos já notaram diferenças sutis entre os dois filmes. Cenas noturnas viraram diurnas e vice-versa. O tapa-olho, na vista esquerda de John Wayne, passa para a vista direita de Jeff Bridges. Sinais. Que podem dizer muito ou coisa nenhuma porque Ethan e Joel Coen são notórios brincalhões.

Jeff Bridges assume o personagem do justiceiro Rooster Cogburn, que coubera a Wayne no primeiro filme. Ele é contratado pela garota Mattie Ross para vingar a morte do pai, assassinado por um certo Tom Chaney (Josh Brolin) de maneira covarde. Acontece que Chaney fugira para território indígena, onde a dupla o persegue. A eles se junta o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon), o extremo oposto de Rooster. Este é um velho beberrão, desbocado e impaciente. LaBoeuf é um dândi, sério e sedutor.

O espectador verá que parte do encanto do filme está nos diálogos afiados entre o irascível Rooster e a surpreendente garota Mattie (a estreante Haylee Steinfeld), dona de cabeça atrevida, raciocínio rápido e determinação de uma mula. No livro, ela é a narradora em primeira pessoa. No filme, esse foco se dilui para ser restabelecido no desfecho, quando então ela se assume como narradora.

Outra parte significativa da sedução virá da filmagem enxuta e, desta vez, despida da famosa ironia dos Coens, traço de estilo que não passa pela goela de críticos irritadiços. Há humor em meio à tragédia e aspereza, mas os Coens abdicam de seu viés estilístico para melhor se conformarem à inspiração de Portis. O filme ganha com isso. Dessa secura de linguagem e da aridez dos personagens emergem migalhas de sentimentos que nascem entre eles ao longo da aventura. Até por serem raras e discretas, essas pepitas afetivas adquirem valor especial. Era assim, parecem-nos dizer os personagens, naquela época, naquela região e entre aquela gente. Integridade, poucas e certeiras palavras, lealdade sem ostentação, senso de justiça, sentimentos sólidos camuflados pelo pudor. O melhor da América. Por isso, e por outros motivos, um crítico como André Bazin podia escrever que o western era expressão da mitologia americana.Discretos e sábios, os Coens fazem jus ao mito.

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