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Os Cinnas deste mundo

Para muita gente, subversivo foi o próprio Iluminismo, com sua sugestão de que a desigualdade não é um capricho inescapável de Deus

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 02h00

Dos personagens de Shakespeare que só entram em cena para adiantar uma trama, dizer a sua fala e desaparecer para sempre, nenhum é tão desafortunado quanto o poeta Cinna. Quando os plebeus romanos, revoltados com o assassinato de Júlio César, saem às ruas atrás de culpados para vingá-lo, encontram o poeta. Como não encontram razão para matá-lo, matam-no pelos seus maus versos.

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Refletindo – ou re-refletindo – sobre a Revolução Francesa, Goethe declarou que preferia a injustiça à desordem. A frase foi muito repetida e continua por aí, não dita, mas implícita no ideário conservador, ou não latida, mas latente. Goethe se desencantou com as consequências da Revolução no espírito europeu, e, na sua frase, absolveu a antiga ordem, que, fosse o que fosse, era ordem. E deve ter refletido sobre a sina dos Cinnas deste mundo, condenados a estar sempre no lugar errado na hora errada, e sacrificados por nenhuma razão.

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A primeira condição para o pensamento livre é não aceitar nenhum tipo de absoluto. Tenho dito. Os intelectuais que aderiram ao comunismo sem fazer perguntas, anos atrás, não tomaram essa precaução. Os que hoje abraçam um anticomunismo anacrônico, que ignora a injustiça e prefere a ordem, e se for de quepe melhor, amam o absoluto. O anticomunismo primário que tomou o poder no Brasil é mais do que uma renúncia ao pensamento, é quase uma automutilação intelectual.

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A Revolução Francesa foi a primeira com um sistema de ideias na sua origem, o que torna difícil conciliar suas raízes no Iluminismo com o terror que veio depois. Mesmo com suas contradições, uma das coisas que a Revolução soltou pelo mundo foi a possibilidade da ação como filha da retórica, do discurso mobilizador. Se depois ela abandonou a teoria e passou a aterrorizar até os poetas, isso não diminui seu pedigree, determinado pelo que determina todas as revoluções: a necessidade de justiça contra uma ordem opressora. Ela nasceu de uma linguagem. A esquerda é descendente de uma eloquência.

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Para muita gente, subversivo foi o próprio Iluminismo, com sua sugestão de que a desigualdade não é um capricho inescapável de Deus. Inaceitável é desistir da justiça. E parar de pensar. 

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