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Lee Siegel
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Os ciclos da vida

Tive meus filhos na meia-idade. Isso me fez ouvir com atenção a história que um amigo me contou uma noite dessas em torno de uma bebida.

Lee Siegel,

14 de abril de 2013 | 02h16

Meu amigo tem 46 anos, quase dez menos do que. Ele e a mulher têm dois filhos com 15 e 11 anos. Ele me contou que contratou recentemente um personal trainer e vinha se exercitando com pesos várias vezes por semana. Ele o fazia porque o que costumava ser uma brincadeira de luta com os filhos quando eles eram mais novos agora, às vezes, fica tão sério que ele tem dificuldade de se defender. Tem vezes, ele me contou, que - em especial com o filho mais velho - eles realmente se engalfinham numa luta física desesperada e meu amigo tem de usar todas as suas forças para manter a dignidade e não ficar imobilizado no chão.

De repente, fui assaltado por uma sensação de pavor mortal. Quando meu filho tiver 15 anos, eu terei quase 65. Não poderei lutar de nenhuma maneira séria. Será que me olhará com piedade? Com desprezo? Me amará deseperadamente, seu amor misturado com medo de que eu possa sair de sua vida antes de ele poder se sustentar. Quando minha filha tiver 15, eu terei quase 70. Será que se orgulhará de mim? Ou ficará embaraçada quando trouxer as amigas pelo fato de seu pai ter a idade dos avós delas?

Sei quanto isso tem de autopiedade, e sei que ter essas criaturas queridas e preciosas é uma bênção na meia-idade pela qual sou profundamente grato. E sei que todo mortal é vulnerável a cada minuto, alguns bem mais do que eu. Mesmo assim, ainda me sinto apanhado entre dois ciclos de vida: a meia-idade e a fase inicial da paternidade. É como avançar e recuar no tempo simultaneamente. Há momentos em que sou tomado por ruminações sombrias que não me abandonam.

Ultimamente, a mídia americana tem se enchido de relatórios alarmantes sobre como números crescentes de pais mais velhos estão produzindo filhos afligidos por toda sorte de dificuldades, da incapacidade de aprendizado ao autismo e à esquizofrenia. Mas o crescimento do número de pessoas tendo filhos com mais idade é um desenvolvimento recente demais para a ciência derivar o tipo de conclusões dessa tendência que só estudos de longo alcance poderiam revelar. Os mencionados estudos não produziram nenhuma certeza. Aliás, a incidência de esquizofrenia na população em geral declinou nos últimos anos. E, infelizmente, o autismo atinge filhos de pais de todas as idades.

As estatísticas não explicam meu pavor. Eu anseio estar com meus filhos para ajudá-los pela vida da maneira que, quando criança, ansiava por uma divindade que me protegesse de fantasmas e trovões. Venderia minha alma ao Diabo, não por poder ou prazer, mas por uma maneira de reverter as estações da existência humana para restaurar minha paternidade ao seu devido lugar no ciclo da vida. Pelo menos me casei com uma mulher maravilhosa que é dez anos mais nova do que eu. Não zombei totalmente dos fatos brutos da vida.

Entretanto, não é muito difícil suprimir o pesar por não ter tido filhos com menos idade. Se isso tivesse acontecido, eu não teria ajudado a trazer ao mundo essas duas particulares criaturas adoráveis. E o que estava havendo quando eu estava na faixa dos 20 anos? Estava batalhando para me firmar como escritor, determinado a ler cada livro escrito, ver cada grande pintura feita, visitar cada capital do mundo. Também dediquei uma quantidade exagerada de esforço a tentar convencer minha namorada na época a me permitir dormir com ela e com sua irmã.

A essa altura da vida, eu me acomodei. Minha libido se virou da escuridão para a luz (na maioria das vezes). E até realizei ao menos minhas ambições essenciais. Não preciso ir a nenhuma festa, agradar constantemente pessoas que seguram as rédeas do poder em meu mundo. Não preciso competir com cada sujeito que encontro, a menos que eles sejam os pais muito mais novos dos amigos ou colegas de classe de meus filhos, caso esse em que me vejo inconscientemente sucumbindo a um ataque de pânico de pai mais velho e afirmando meu status de pessoa mais confortavelmente estabelecida. (Com os banqueiros super-ricos adoto uma tática diferente. Sugiro que, como escritor, sou dono de bens intangíveis que não têm preço). Sinto-me forte no mundo quando estou ao lado de meu filho, que quero acreditar que seja velho o bastante para sentir a força de seu pai.

Mas ele também é velho o bastante para ter consciência da realidade de envelhecimento e morte. Logo começará a perceber que alguns pais de seus amigos são bastante jovens para ser meus filhos também. Provavelmente não ajuda que às vezes eu projete o sentimento de minha própria mortalidade nele, dizendo-lhe para ser cuidadoso quando devia confiar em seus instintos e ficar de boca fechada.

Mas aqui estou eu me entregando de novo à autopiedade, quando deveria estar contando minhas bênçãos. Afinal, as pessoas estão vivendo vidas mais longas e mais saudáveis do que nunca. Quanto ao risco de ser um pai de mais idade, ninguém recebe algum tipo de dispensa das circunstâncias inconstantes do ser humano.

E a maioria de nós conseguiu arrancar seu próprio prêmio especial do que o destino nos reservou. Para mim, é o riso descuidado e prazeroso dos meus filhos pela casa enquanto escrevo estas linhas. Em Acossado de Jean-Luc Godard, um jornalista pergunta a um poeta famoso o que ele mais deseja. "Me tornar imortal", diz o poeta, "e depois morrer". A maneira como eu finalmente imagino isso é que, se puder batalhar com sucesso para embutir o melhor de minha natureza nos corações e almas de meus filhos, em suas memórias e seus caracteres, minha imortalidade estará garantida, danem-se os ciclos de vida.

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