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Os canhotos e o plausível

A ausência de motivos claros para a bestial agressividade ocorrida em Suzano nos obriga a saber mais sobre nós mesmos

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2019 | 04h30

Sempre fui canhoto e somente agora, com 82 anos, é que virei um canhestro ambidestro, usando a mão direita para sustentar o peso da minha velhice. Parafraseando Sartre, a aparência, conforme amavelmente me afirmam, é razoável, mas a essência (que é minha) vai se aguentando como pode. 

O fato concreto é que me entendo como canhoto. Usar a mão e o pé esquerdos é imanente ao meu ser porque não me foi ensinado. Pelo contrário, o que tentaram fazer comigo foi corrigir-me, tratando meu canhotismo como um defeito. “Robertinho é canhoto...”, diziam resignados e para espanto meu os pais, avós e tios. Meus irmãos e amigos, porém, submetidos às mesmas opressões daquilo que chamamos de “processo de socialização” ou de “civilização”, que nos mandava calar a boca e descobrir que “criança não tem vontade”, achavam bacana os meus surpreendentes chutes de esquerda.

Na escola primária, fui assediado por colegas por ser um eterno novato chamado de “mata!” ou “da mata...” e por meus professores por escrever com a minha mão certa que, aprendi, era errada. Um dia, levei uma reguada na mão esquerda. Um acontecimento que o velho em mim enxerga como importante, mas pequeno diante das outras pauladas que ganhei na vida depois de “grande”. 

Os eventos chocantes ocorridos numa escola, lugar destinado ao compreender, explicar, valorizar e afirmar a transmissão de ideais ou valores entre gerações nisso que chamamos de “educação”, nos põem diante do absurdo. Eles nos confrontam com uma plena ausência de plausibilidade moral. Pois quando a agressividade e a violência assassina dos tiros substituem a paciência e a sabedoria das palavras, rompem-se as rotinas. O súbito sumiço do regular nos leva a uma busca desesperada de rumo dentro de nós mesmos. 

Em outra parte do mundo, entretanto, num país que no nosso modo reacionário de pensar seria, por definição, melhor e “muito mais civilizado” do que o Brasil, ocorre algo do mesmo teor em mesquitas. Em templos islâmicos em que, tal como na escola e na universidade, se busca minorar o sofrimento e se salientam a esperança e a fé num mundo melhor. 

Esses rompimentos violentos de rotinas, fundados na ignorância, crueldade, radicalismo, negação absoluta da realidade, má-fé e agressão em todos lugares, mas, acima de tudo, nos países permanentemente tidos como modelares e “civilizados”, deveriam nos levar a duvidar ou ao menos a questionar se realmente existe alguma comunidade imune aos dilemas humanos; se alguma religião, regime econômico ou político resolveu de modo cabal os problemas decorrentes dos valores, hábitos e rotinas instituídos, os quais reprimem e entram em conflito entre si. 

Tudo indica que não há neste mundo humano, reiteradamente programado e reprogramado, nenhuma receita infalível de felicidade e plenitude além e aquém das que continuamos a seguir tenaz e honestamente. Em nome de Deus, ou debaixo da nobre crença de compreender, rejeitar, aceitar, corrigir e ter o equilíbrio e a coragem para começar de novo...

Se não conseguimos entender um canhoto, como engavetar nas nossas mentes duas guerras mundiais, Hiroshima, Nagasaki, inúmeros conflitos locais e uma permanente “guerra fria”?

Estimado leitor pare para pensar o seguinte: essas imensas irracionalidades geopolíticas, que levaram à morte planejada e legitimada de milhões de vidas, transformam em brincadeira de criança o que, transtornados, assistimos com horror em Suzano e na Nova Zelândia.

Não é fácil descobrir como o incrível progresso da tecnologia digital pode ironicamente transformar-se num filme de terror. Isso para não pensarmos no aquecimento global cujos efeitos mostram com uma clareza alarmante como amor e morte estão profundamente relacionados.

A mim me surpreendem as afirmações de que a violência não faz parte da tradição brasileira, quando sabemos que o Brasil nasceu e cresceu debaixo da escravidão negra combinada com aristocracia branca. E sem até hoje dar valor à vida intelectual e aos locais onde tal empresa se realiza: as escolas, os museus e as universidades onde as gerações se encontram para o confronto e para uma indispensável interdependência, esse conceito básico do processo de humanização.

Nesse sentido, a ausência de motivos claros para a bestial agressividade ocorrida em Suzano e outros lugares nos obriga a saber mais sobre nós mesmos.

O mal-estar da civilização invocado por Freud em 1930 chega sem aviso prévio. Como uma bofetada ou uma irônica traição. Resta-nos afirmar que o entendimento deve preceder o julgamento e que a compreensão deve ter e ser a prioridade. 

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