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Os canhões de agosto

Nenhuma outra questão me parece mais relevante, hoje, que a violência. A fome, a miséria, a sensação de insegurança e os problemas ambientais dela derivam ou a ela dão origem e vigor. George Orwell sintetizou o futuro da humanidade na imagem de uma bota pisoteando um rosto humano, para sempre. O agouro continua valendo. Com ou sem bota.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h05

Se agora temos Gaza, Damasco, Mossul, Donetsk, já tivemos Troia, Guernica, Auschwitz, Vietnã, Ruanda, afora as crueldades cometidas em tempos de paz, no cotidiano, as maldades alimentadas pelo ódio, o medo, a intolerância, o fanatismo, a ambição, a cobiça, a xenofobia, e outras paixões negativas. A violência está na origem de tudo (Heráclito via o combate como o pai de todas as coisas), sem exclusão, muito pelo contrário, das religiões. Apesar de intrinsecamente cega à reflexão e ao pensamento, várias mentes poderosas nela viram um agente transformador, "a parteira" da História de que falava Marx, há muito desautorizada pelos sucessivos abortos que cometeu.

Inevitável que o ciclo de conferências sobre as mutações na sociedade que há tempos nos oferece o professor Adauto Novaes tenha escolhido a violência como subtema deste ano. E não apenas porque os black blocs continuam ativos nas manifestações de rua daqui e a Primeira Guerra Mundial esteja sendo relembrada e reavaliada por toda parte. Com início marcado para o próximo dia 14 em São Paulo (Sesc Vila Mariana) e, quatro dias depois, no Rio (Biblioteca Nacional), "Mutações: Fontes Passionais da Violência" terá como eixo as relações entre violência e civilização e o papel das paixões nos destinos da humanidade.

Além de mencionada e discutida por Novaes no texto de apresentação do curso, a Guerra de 1914-1918 servirá de mote a quatro das 24 palestras programadas. Ela é o "emblema da mutação da própria ideia de violência, quando surge o que pode ser definido como o domínio da técnica, ou seja, o advento da civilização tecnocientífica", esclarece o professor. Tanques, aviões, submarinos, metralhadoras, canhões antiaéreos, zepelins, granadas de mão, lança-chamas, armas químicas - todos esses artefatos de destruição ou fizeram seu début ou se aperfeiçoaram naquele conflito.

Minha lembrança mais remota da guerra do kaiser - da qual, evidentemente, não fui contemporâneo - é a cena de O Grande Ditador, com Chaplin tentando desvencilhar-se da mira da Gorda Berta, o assombroso canhão alemão de longo alcance introduzido nos primeiros ataques à Bélgica, em agosto de 1914. Só depois, ainda infante, ouvi falar pela primeira vez em lugares que jamais deixaremos de associar àquela carnificina, como Marne, Somme, Verdun, Galipoli, palcos de suas mais encarniçadas, e por isso míticas, batalhas.

Mais tarde, a Primeirona (apelido dado por Luis Fernando Verissimo) passou a me evocar Hemingway, John Dos Passos e o poeta e.e. cummings, que pela frente ocidental circularam ao volante de ambulâncias da Cruz Vermelha. Não li o best-seller de Remarque, Sem Novidades no Front, mas vi o filme, e li Adeus às Armas, como quase tudo de Hemingway, e, com justificável atraso, The Enormous Room, obra ficcional de cummings, e a tetralogia de Ford Madox Ford, Parade's End. F. Scott Fitzgerald nem sequer dirigiu ambulância, mas fez Dick Diver, o desencantado protagonista de Suave É a Noite, viajar pelos campos da batalha do Somme, a refletir sobre os sonhos e crenças que ali haviam se dissipado na década anterior.

Embora tenha sido uma guerra quase exclusivamente europeia, sobretudo de boches (alemães) contra poilus (franceses) apoiados por britânicos, os americanos, tardios na luta, entraram como se nela tivessem participado desde o início. Penso em Faulkner (Uma Fábula, Soldier's Pay) e, acima de tudo, em Dalton Trumbo, que a meu ver escreveu não só o melhor romance inspirado na Primeirona, Johnny Vai à Guerra, mas o mais angustiante romance de guerra ponto.

Digo isso com todo o respeito que merecem as narrativas do checo Jaroslav Hasek (As Aventuras do Bom Soldado Svejk), do francês Henri Barbusse (Le Feu) e dos russos Boris Pasternak e Alexander Soljenitsyn. Poesia é outro departamento, dominado amplamente pelos ingleses. Siegfried Sassoon sobreviveu aos "canhões de agosto"; Rupert Brooke e Wilfred Owen voltaram para Londres num caixão. Mais por seus poemas, de discutível valor, do que por sua atividade como soldado, o belo e romântico Brooke tornou-se o símbolo da juventude inglesa dizimada pela insensatez da guerra, de toda uma geração que rumou, altaneira, para as trincheiras e por lá ficou. Não morreu enfrentando os boches, mas os agentes patogênicos de uma infecção causada por uma picada de mosquito, a caminho de Galipoli.

A França perdeu mais hommes de lettres que a Alemanha. Ou então soube registrar suas baixas com maior rigor. Ao todo, 403 escritores e poetas, relacionados e verbetados nas 3.959 páginas dos cinco volumes de L'Anthologie des Écrivains Morts à la Guerre. Três perdas notáveis: o poeta Charles Péguy, o romancista Henri Alain-Fournier e o poeta e escritor Ernest Psichari, mortos ao longo de setembro de 1914. Péguy e Psichari cavaram em versos suas sepulturas. Num longo poema intitulado Eve e publicado um ano antes do início do conflito, Péguy qualificou de felizes "todos aqueles que morrem numa guerra justa". Na mesma época, Psichari publicou um panfleto de louvação às armas e contra o "humanitarismo pacifista". Partiu para a guerra como se fosse para as Cruzadas e tombou nas Ardennes belgas. Enterrado às pressas por soldados prussianos, Fournier, talvez o mais lembrado dos três fora da França, por causa do romance O Jardim das Ilusões: O Grande Meaulne, só foi declarado oficialmente morto em 1920 e seus restos sepultados em 1991.

Guerra justa. Os dois lados assim a imaginavam e com ardor a estimularam e incensaram. De um lado, a civilização; do outro, a barbárie. Os franceses consideravam os alemães bárbaros, e vice-versa. Os ingleses não desfrutavam de melhor reputação entre os alemães, que os acusavam de haver desprezado e humilhado suas melhores cabeças, escorraçado Byron, proibido Shelley de educar os filhos, enviado Oscar Wilde à prisão. Numa carta ao romancista e dramaturgo Gerhart Hauptmann, o pacifista militante (e também Nobel de Literatura) Romain Rolland perguntou-lhe, referindo-se aos alemães: "Vocês, afinal, são os netos de Goethe ou de Átila?". Hauptmann, tremendo vira-casaca, ora pacifista, ora militarista, honestamente respondeu: "De ambos".

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