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'Os bons são poucos'

Som e solo são coisas diferentes; o improviso não é uma obrigação e o talento está em falta - palavras do irmão mais velho dos Marsalis

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Branford Marsalis

SAXOFONISTA

ESPECIAL PARA O ESTADO

O telefone toca em minha casa, em Botafogo, no Rio. É Branford Marsalis, de Nova York. Tem 15 minutos para mim em sua grade de compromissos. Domingo toca na Bahia; terça, em São Paulo; quarta, no Rio. Sim, ele conhece Bahia, gravada por John Coltrane, e admite que um dia desses pode tocar o tema de Ary Barroso. Já esteve em Salvador com seu grupo Buckshot LeFonque, uma farra funk dos anos 90 que ficou muito cara para os padrões atuais. No Brasil, Branford é acompanhado pelo trio usual com Joey Calderazzo (piano), Eric Revis (baixo) e Justin Faulkner (bateria). Sabe também que Salvador é uma espécie de New Orleans brasileira, nossa cidade com maior carga cultural africana.

Filho mais velho do pianista Ellis Marsalis, Branford fez 51 anos em 26 de agosto. Wynton nasceu depois, mas cresceu tanto que muita gente acha que o primogênito é ele. Branford ironizou a relação no tema Cain & Abel. Diz que os dois discordam em tudo, de música a tipos de roupa e de mulher, passando pela política. Mas, no fundo, diz ele, "somos duas linhas de metrô que partem de estações diferentes, mas convergem para o mesmo ponto final".

Existe um significado especial em pertencer a uma famosa dinastia do jazz?

Não para mim. Existem muitas famílias musicais no jazz que levam adiante a tradição. Em New Orleans, principalmente. Como no Rio, a música lá é uma espécie de produto local.

Por falar em Rio, a bossa nova foi uma influência?

Não chegou a ser uma influência direta, mas foi. Stan Getz fez tudo o que havia para fazer. Ouço sempre música brasileira - Ivan Lins, Elis Regina, Milton Nascimento, Olodum. E, claro, a música erudita. Gravei Villa-Lobos no álbum Romances for Saxophone. E aprendi muito em 2008, nas 28 apresentações da turnê Marsalis Brasilianos, com a Philarmonia Brasileira (dirigida pelo maestro Gil Jardim).

Como Wynton, você é um perfeito anfíbio, à vontade tanto no jazz como no erudito.

Não esqueça que desde cedo estudamos em conservatório e o erudito exige muito trabalho. Nem todo músico de jazz se sujeita a essa disciplina.

No CD de duo com o pianista Joey Calderazzo, Songs of Mirth and Melancholy, você vai adiante, ensaiando uma fusão jazz com erudito.

Sim, tocamos juntos há mais de dez anos, mas só recentemente amadurecemos essa ideia. Incluímos um tema de Brahms e outro de Wayne Shorter, mas nossas composições também têm a preocupação erudita de focar mais no som do que no solo.

Parece até um conceito antropológico: o que quer dizer com "o som e o solo"?

O jazz é tomado muitas vezes por aquela aparência descabelada dos solos frenéticos, como se o improviso não fosse um dom, mas uma obrigação. Já o som é aquele trabalho diferenciado de cada nota, que leva a marca pessoal de cada músico. Caetano Veloso, por exemplo - não é preciso entender as palavras em português que ele canta para apreciar a música.

E João Gilberto?

João Gilberto. E Elis Regina. E Milton Nascimento.

Saindo um pouco da música, sem sair. O artista deve se engajar socialmente? Você o fez, durante o furacão Katrina, que arrasou New Orleans, e o faz com seus projetos educacionais.

Devo isso ao meu pai. O velho se sentava à mesa, lia os jornais e comentava o que acontecia com o mundo. Continuo lendo o jornal todos os dias e, infelizmente, vendo o que acontece. Não há como não ser engajado, quando você pode dar a sua contribuição.

O 11 de Setembro completa dez anos em poucos dias. O que sente, como cidadão americano?

É a origem da crise que vivemos hoje e o que afeta muito a economia, o cidadão americano e, particularmente, a atividade cultural. Disseram a Osama Bin Laden que o presidente dos Estados Unidos era um xerife do Velho Oeste que, se fosse atacado, revidaria. A partir daí nosso país investiu muito do nosso dinheiro nessa guerra sem fim.

Para encerrar, aquela pergunta infalível: qual é o futuro do jazz?

O futuro do jazz depende dos bons músicos. Infelizmente, não vivemos um momento de bons músicos. Existe a voragem do dinheiro. A música popular se tornou uma grande indústria. Os instrumentistas se voltaram para o conforto eletrônico, buscando fórmulas mágicas na tecnologia. É mais fácil ligar na tomada do que penar horas a fio num instrumento acústico, que parece um anacronismo em nossos dias. Mas existe um diferencial fabuloso, tem brasileiros que operam milagres apenas com um violão e uns badulaques de percussão, como faziam os heróis do blues primitivo. O talento, em tudo, e principalmente no jazz, é essencial.

GRANDE FAMÍLIA

Ellis Marsalis

O chefe do clã, 77 anos em novembro, é um dos primeiros modernistas de New Orleans, fugindo ao folclore do Dixieland local. Pianista com 20 álbuns, filósofo, pedagogo e guru.

Wynton

Estrela da família, 50 anos em outubro, virtuose do trompete, educador, idealizador do projeto Jazz at Lincoln Center, em Nova York, tem 80 álbuns em seu nome, presença no jazz há quatro décadas.

Delfeayo

Trombonista, 46 anos, educador, compositor, fez um projeto para portadores de autismo inspirado no irmão autista Mboya Kenyatta. Seu CD de 2011, Sweet Thunder, celebra Duke Ellington e Shakespeare.

Jason

O caçula do clã, 34 anos, baterista, profissionalizou-se com o pai aos 12 anos depois de começar a tocar, aos 3, com uma bateria de brinquedo.

Polirritmista, tocou jazz, funk, samba e música celta. Em 2009 fez o primeiro CD como líder ao vibrafone.

BRANFORD MARSALIS Teatro

Bradesco.

Rua Turiassu, 2.100, tel. 2063-5087.

3ª, às 21h. De R$ 40/R$ 120

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