Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Os baús do cartunista

Artisticamente, produção mais valiosa começa a partir de 1957, quando Millôr adquire o domínio técnico do guache

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h09

Millôr Fernandes faria 90 anos em 2014. Seria uma ocasião fantástica para preencher uma lacuna importante da sua obra: a publicação de livros que abrangessem certos aspectos inéditos ou pouco conhecidos de sua carreira de artista gráfico. Só existe uma publicação do tipo até hoje.

Mas Flávio Pinheiro, superintendente do Instituto Moreira Salles, diz que a instituição não quer fazer nada "açodadamente". O primeiro esforço vai ser catalogar e organizar o acervo, após sua remoção esta semana. "Mas é evidente que temos planos de fazer uma exposição e organizar publicações do Millôr pictórico", afirma Pinheiro, fã do artista.

O consultor do acervo Millôr Fernandes será o também cartunista Cássio Loredano, que já trabalhou com a obra do lendário J. Carlos. Loredano organizou cinco livros a partir do acervo de cerca de mil originais de J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha, um dos maiores artistas brasileiros da primeira metade do século 20).

O legado de Millôr poderá ser ainda escarafunchado em uma outra fonte importante nos próximos dias: sua família tem intenção de buscar nos arquivos da repressão o material do artista gráfico que sofreu censura nos anos da ditadura militar. Durante sua experiência no Pasquim, por exemplo, Millôr foi um dos mais atingidos pela tesoura da censura.

"Para você ter uma ideia, para sair uma edição do jornal, às vezes eles tinham de fazer duas edições e meia. Realmente foi um período muito violento", pondera Ivan Fernandes, que tem intenção de aproveitar a nova lei que acaba com o sigilo de documentos do período e buscar esse material.

Daquilo que controlava, Millôr não tinha por hábito sair presenteando amigos com algum de seus desenhos. "Era como se fosse um filho para ele. Dar a alguém seria como arrancar um pedaço dele", afirma. Ainda assim, havia ocasiões em que ele se desapegava. Fez um quadro de grandes dimensões para presentear a mulher do amigo Ziraldo. "Mas não ter recibo nem dedicatória é muito difícil", conta Ivan Fernandes. Por exemplo: o mais próximo amigo da vida do cartunista foi o jornalista Luiz Gravatá, que possui cerca de 80 desenhos presenteados por Millôr. Mas apenas dois desses desenhos não têm dedicatória - o artista era muito cioso de sua obra.

"Para ele, era um ato de dedicação, de delicadeza. Ele podia ser um cão de vez em quando, mas em geral era muito delicado", diz o filho, também artista, que repartia muitos gostos com o pai - exceto, talvez, a música. Millôr adorava tango, e a escola mais ortodoxa da música brasileira, como Noel Rosa, Dorival Caymmi, chegando até Moreira da Silva. Ivan sempre gostou mais do jazz americano, gente como Chet Baker, Jim Hall, Ron Carter.

Na avaliação de Ivan Fernandes, seu pai começa a se tornar o artista de excelência que se tornou a partir de 1957. "De 1945 a 1957, ele era apenas mediano", afirma. "Mas, dali em diante, dá um salto de qualidade extraordinário, que é quando começa a usar o nanquim e o bico de pena. Logo a seguir, quando passa a usar o guache, é um outro salto de qualidade."

Esse "upgrade" de Millôr não teve absolutamente nada a ver com sua admiração pelo artista americano Saul Steinberg, segundo ele avalia. Flávio Pinheiro concorda. "Era uma escancarada admiração, mas, como tudo mais que ele fez, sua obra era de uma extraordinária originalidade", avalia Pinheiro.

Curioso notar que, mesmo com a sua multiplicidade de talentos, Millôr não enveredou pela escultura, apesar de brincar muito com a tridimensionalidade em alguns trabalhos. Ivan Fernandes brinca com esse aspecto. "Acho que era pela mesma razão que também não fazia pinturas a óleo: ele não gostava de nada que sujasse. Outra coisa era que ele tinha uma característica pouco conhecida, era meio estabanado. Derrubava coisas o dia todo", diverte-se.

O ano passado foi triste para o humor brasileiro. Morreram, além de Millôr, Chico Anysio e Ivan Lessa. "Se juntar os grandes frasistas europeus e bater em um liquidificador, não dá meio copo de um Millôr", reverenciou o jornalista Ruy Castro, quando ele foi enterrado. "Não havia um dia em que uma frase sua não iluminasse o que estivesse acontecendo de obscuro."

A ida da obra de Millôr ao IMS faz com que ele, de certa maneira, "se reencontre com sua turma", avalia Ivan Fernandes. Já estão lá, no acervo de literatura, as obras dos seus grandes amigos Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade.

O IMS também tem um pródigo acervo de fotografia, seu principal veio artístico: são cerca de 550 mil imagens, e aquele que é provavelmente o mais importante conjunto de fotografias do século 19 no Brasil (a maior parte dedicada ao Rio de Janeiro) e um magnífico conjunto relativo à fotografia nacional da primeira metade do século 20. Mesmo a parte que compreende as aquarelas dos artistas viajantes do século 19 (e que receberá a obra de Millôr) também existe em função de complementar o acervo fotográfico, compondo uma espécie de "pré-história" da fotografia, na avaliação de Flávio Pinheiro.

Já o acervo de música é composto de cerca de 100 mil peças, das quais aproximadamente 28 mil gravações já estão digitalizadas e disponíveis para pesquisadores no site do instituto. Entre elas, as coleções de José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, e os arquivos pessoais de Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Walter Silva, Elizeth Cardoso, Garoto e Mario Reis, entre outros.

Notícias relacionadas
Tudo o que sabemos sobre:
Millôr Fernandes

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.