Os bastidores do palco e da vida de dois atores

Com a peça Uma Vida no Teatro, que estreia hoje, Francisco Cuoco inicia a comemoração de seus 80 anos

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h08

Francisco Cuoco faz lembrar de Cristiano Vilhena, o protagonista ambicioso da novela Selva de Pedra (1972), ou Carlão, o taxista eticamente dividido de Pecado Capital (1975), ou ainda Herculano Quintanilha, o vidente de O Astro (1977) - todos personagens marcantes da teledramaturgia brasileira. "Mas minha origem é o palco, onde aprendi a utilizar o corpo em função da arte", diz o ator, que completa 80 anos em novembro, mas que decidiu iniciar o período festivo hoje, com a estreia de uma peça ironicamente intitulada Uma Vida no Teatro. Ali, ele vive um artista no outono da carreira, quando a rotina é marcada pela solidão, mas acalentada por ternas lembranças.

Foi justamente essa cômica revisão da vida que interessou Cuoco. Escrito por David Mamet, um dos mais importantes dramaturgos americanos da atualidade, o texto, que inicia temporada no Teatro Vivo, narra a trajetória de dois atores, um jovem, John (Ângelo Paes Leme), e um velho, Robert (Cuoco), que, durante um período de suas carreiras, trabalham juntos e vivenciam inúmeras situações típicas de artistas da cena, como inseguranças, carências, sucessos e fracassos em várias montagens. "É como um ritual, em que o mais experiente passa o bastão para o iniciante", comenta o diretor Alexandre Reinecke.

A experiência não é novidade para Cuoco, que trabalhou com mestres notáveis - depois de abandonar o Direito e estudar na Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita nos anos 1950, ele estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (com A Muito Curiosa História da Virtuosa Matrona de Éfeso, em 1958) até integrar a companhia Teatro dos Sete, em que trabalhou com diretores como Alberto D'Aversa, Gianni Ratto, Fernando Torres e atores como Ítalo Rossi, Fernanda Montenegro, Carminha Brandão, entre outros.

"Convivi com grandes artistas, que não só me ensinaram em cena como permitiram que eu presenciasse fatos incríveis", lembra Cuoco. "É o caso de Procópio Ferreira: trabalhei com ele no TBC, cumpríamos temporada longa, com espetáculos de terça a domingo, sendo duas sessões no sábado. Pois bem, nesse dia de dupla jornada, depois da última apresentação, saíamos para jantar e, mesmo sendo de madrugada, Procópio devorava uma enorme feijoada."

Para interpretar Robert, o veterano que gosta de falar sobre as atuações de seus colegas, dar dicas e estar sempre pronto para discutir cenas, Cuoco conta que não se inspirou em nenhum ator em especial, mas em uma mescla de experiências. "Ao longo dos anos, fui aproveitando a inflexão de voz de um, a postura de outro, o uso da pausa de um terceiro, para compor meus personagens."

Apesar das diferenças que sente em relação a Robert - a solidão, por exemplo, não é um tormento que o aflige -, Francisco Cuoco vê a própria figura quando entra em cena. "O peso da idade para Robert se personifica na perda dos amigos à medida que envelhece - é como se sua própria história perdesse referências. Isso é inevitável para todos que atingem a minha idade."

É justamente a tristeza do personagem que faz com que o público se divirta, comenta o diretor Reinecke. "Não é nada cruel, mas o conflito entre o ator novo e o velho, as lições de moral que Robert passa para John, enfim, situações emotivas provoca, na verdade, muitas risadas", observa.

Como é ambientada nos bastidores, o cenário da peça mostra o que acontece atrás do palco. "Os atores manipulam os objetos, reforçando sua importância", conta Reinecke. "Na verdade, o texto é pontuado por uma série de flashes e mostra diversos momentos vividos por eles, desde uma aula de dança até uma situação crítica, que qualquer ator corre o risco de passar: esquecer o texto."

O diretor lembra que convidara Cuoco para interpretar um outro espetáculo (Conexão Marilyn Monroe, escrito pelo próprio Reinecke), mas o ator não se interessou em participar de uma comédia. "Foi quando ofereci a comédia de Mamet, que o deixou empolgado", comenta o encenador, que pretende montar outro texto do dramaturgo, O Sucesso a Qualquer Preço, que já foi filmado em 1992 por Jack Lemmon, Al Pacino e Alec Baldwin.

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