Os bambas do samba

Série de shows com diferentes gerações dá início às comemorações do centenário de Noel Rosa no mesmo dia em que se completam 30 anos da morte de Cartola

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

     

 

 

 

A encíclica do samba reza que as obras de dois pilares da música popular brasileira sejam lembradas hoje. O centenário de Noel Rosa comemora-se apenas no dia 11 de dezembro, mas nesta terça-feira - mesmo dia em que se completam 30 anos da morte de Cartola -, as composições do Poeta da Vila serão homenageadas em releituras de um projeto no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP).

Embora contemporâneos, eles revolucionaram o cancioneiro nacional em períodos diferentes. É bem verdade que se conheceram, conviveram e até compuseram juntos no início da década de 1930, mas cada um seguia seu caminho, naturalmente, por serem de origens distintas.

Ao passo que Cartola vivia no morro de Mangueira, em meio a trabalhadores pobres, no fim dos anos 1920, desfilando com o Grupo dos Arengueiros (no sentido de bagunceiros e arruaceiros), Noel vinha de uma família de classe média, foi aluno do colégio de padres São Bento, um ginásio de elite que o levaria posteriormente a estudar Medicina.

 

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A formação diferente influenciou diretamente no estilo das composições dos dois. Noel de Medeiros Rosa sabia jogar com as palavras em seu conjunto Bando dos Tangarás e Angenor de Oliveira, o Cartola, criava sambas pela malandragem, com a mesma mentalidade de subúrbio dos autores do Estácio. "Não se pode ignorar essa diferença de classe. O Noel nunca fez samba-enredo, como o Cartola, que compôs os primeiros da Mangueira, e ele trabalhou em cima de temas da classe média que são atuais até hoje. Há um samba dele (com Vadico), Pra Que Mentir, que se o Chico Buarque assinasse todo mundo diria que é dele", diz o jornalista e pesquisador José Ramos Tinhorão.

É importante a ressalva de que a primeira fase de Cartola era marcada por grande simplicidade, com sambas rasteiros. As maravilhas que o eternizariam como um dos maiores compositores da música popular brasileira viriam em sua retomada, a partir dos anos 1970. "Se você ouve as letras da primeira fase e compara com as da volta, vai pensar que foram feitas por outra pessoa. Ele conviveu com o Sérgio Porto, mas não foi fazer nenhum curso, tinha uma sofisticação natural, um exemplo raro, voltou como um poeta", diz Tinhorão.

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