Os artifícios da natureza

Obras de Pedro Motta captam o drama que ronda o meio ambiente do Brasil

RODRIGO NAVES, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h08

Parte considerável da fotografia contemporânea vem se dedicando a problematizar a espontaneidade e o realismo frequentemente associados a esse meio de expressão. Nas imagens de Jeff Wall, que registram situações minuciosamente construídas e encenadas, acontecimentos corriqueiros (flagrantes de rua, a convivência doméstica) adquirem uma familiaridade estranha, que rompe com a mesmice desses registros. Sua capacidade de recriar momentos genéricos, vivenciados por quase todos nós, torna objetivos (e portanto compartilháveis) acontecimentos que diriam respeito apenas aos indivíduos. E justamente por isso são estranhas, já que põem em xeque a orgulhosa singularidade que nos diferenciaria dos demais seres humanos.

Os "Stills" de Cindy Sherman operam num registro semelhante. No entanto, em suas fotos a realidade é um rumor ainda mais longínquo. A sensação de déjà vu que elas provocam decorre da sua incrível habilidade para aludir a imagens cinematográficas que povoam o imaginário público. Só que a dimensão evocativa dessas fotos não nasce de uma experiência singular que nos traz de volta toda uma situação passada (como a "madeleine" de Proust), e sim de uma proximidade incômoda, de semelhanças embaraçosas que fazem da nossa memória um terreno pantanoso, sem ponto de apoio possível.

Campo Fértil, a atual exposição do mineiro Pedro Motta na Galeria Luisa Strina, também lança mão de recursos semelhantes. Quase todas as fotos da mostra passaram por intervenções do artista, sejam elas desenhos feitos à mão ou montagens envolvendo processos eletrônicos, como o photoshop. Mas se os trabalhos de Jeff Wall e Cindy Sherman discutem o estatuto problemático da realidade num mundo permeado por imagens, Pedro Motta se move em outra direção. Suas interferências procuram revelar uma realidade em situação de risco. Em lugar de acentuar o caráter artificial da operação que realiza, ele procura fazer da artificialidade um caminho de acesso a um mundo ao mesmo tempo potente e degradado.

Iceberg, um de seus trabalhos mais bem-sucedidos, mostra os efeitos da erosão num morro de saibro. Aqui, o uso do photoshop se limitou a acrescentar uma vegetação rala no lado esquerdo do morrote, criando um contraste com a paisagem desolada provocada pela voçoroca.

No entanto, essa intromissão produz alguns desdobramentos interessantes. O tom mais escuro do trecho com vegetação - a parte introduzida com a ajuda do photoshop - acentua a luminosidade do saibro e torna a degradação da terra um espetáculo quase belo. Ao mesmo tempo, as faixas de cor mais clara que permeiam as áreas erodidas lembram as estrias de gordura dos pedaços de carne que vemos pendurados num açougue qualquer. A combinação de corrosão, beleza e carnalidade produz um resultado poderoso. A defesa da natureza deixa de ser a busca de uma realidade bucólica e harmônica. E a experiência de uma realidade natural simultaneamente bela e áspera possivelmente seja mais reveladora que o recurso à vida pastoral.

Montanha Mágica a princípio vai numa direção semelhante. A encosta de um morro aparece tomada por cupinzeiros, revelando o descaso em relação à terra, pois os cupins prosperam sobretudo em solos ácidos, em geral negligenciados pelos proprietários. Nessa foto, Pedro Motta acrescentou vários cupinzeiros à fotografia original, acentuando a dimensão danosa a que pode conduzir uma intervenção descuidada sobre a terra. Mas aqui acredito que o artista tenha sido menos feliz. Ao pontuar a encosta do morro com as saliências construídas pelos cupins, o artista corre o risco de criar um ritmo sedutor que desvia a atenção da questão que lhe interessa discutir. O recurso aos meios eletrônicos nem sempre atende à função a que foram convocados. E a intervenção do artista na natureza - ainda que por meios eletrônicos - pode ser um tiro que sai pela culatra.

Acredito que o esforço do artista para acentuar o drama que ronda parte significativa da natureza do País deixou um pouco de lado sua atenção aos recursos utilizados para evidenciar essa situação. E penso que, nos momentos em que essas intervenções se mostram mais claramente, a situação se torna ainda mais questionável.

Na série Estatuto da Divisão Territorial, Pedro Motta desenhou tubos que se acoplam aos cupinzeiros. Tudo indica, como se lê no folheto distribuído na exposição, que a intenção do artista foi a de "criar um estranhamento" em relação a essas presenças tão comuns na área rural. Os labirintos de um cupinzeiro se exteriorizariam nos tubos desenhados. E o sistema de vasos comunicantes constituído pelas forças naturais revelaria seu lado mecânico, justamente em consequência dos desequilíbrios introduzidos pela intervenção humana.

Funcionando quase como um suporte para uma narrativa, os cupinzeiros terminam assumindo um papel passivo que seria justamente aquilo que o artista buscava problematizar. Se em seus melhores momentos a exposição de Pedro Motta consegue fazer do artifício uma condição de intensificação da natureza, em outros corre o risco de apenas reiterar aquilo que procura criticar.

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