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Os Arquimedes de araque

"Estamos tentando mudar a maneira como a polícia se vê e como a comunidade vê a polícia." Vestida com o uniforme da Polícia Militar carioca, Vanessa Coimbra Cavalcanti falava a uma plateia em Nova York, a convite do Instituto Google Ideas, ao lado do diretor do Instituto Igarapé, Robert Muggah. Três horas antes, a policial carioca tinha sido indiciada com mais 14 colegas por envolvimento na tortura e assassinato do pedreiro Amarildo de Souza, na favela carioca da Rocinha.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2013 | 02h16

Vanessa leu um texto escrito num inglês impecável que sugere a redação, quem sabe, de seu companheiro no programa. Já Vanessa lutava para pronunciar as palavras que seu ghost writer lhe tinha destinado na apresentação. A Polícia Militar carioca disse que o Instituto Igarapé escolheu Vanessa porque ela é a única na UPP da Rocinha que fala inglês. O Igarapé é uma ONG especializada em policiamento e segurança e se associou ao Google para desenvolver o aplicativo Smart Policing, que coloca celulares com câmeras gravando no bolso de policiais para, como explica em seu site, promover a transparência do policiamento.

Sob os aplausos para Vanessa de uma plateia que devia desconhecer a Rocinha e o caso Amarildo, Robert Muggah começou sua apresentação e disse que trabalha com ela e com a UPP da Rocinha há um ano. Pediu que os presentes primeiro prestassem atenção em um vídeo que mostrava pelo menos duas pessoas sendo agredidas por policiais militares na frente de várias testemunhas. Há uma confusão, mal capturada pelo que parece ser um celular. Muggah informa que o vídeo, feito em janeiro, logo teve mais de 30 mil hits no YouTube. "Vemos que a tensão aumenta", ele continua. "O que está acontecendo? O vídeo coloca mais perguntas do que respostas? Quem começou o incidente? De quem é a culpa? O que aconteceu antes e depois? Podemos tirar conclusões só por alguns segundos de vídeo?" Muggah parece lamentar que as cenas corram o Brasil e o mundo. Continua com uma platitude sobre as mídias sociais terem se tornado a nova ferramenta de protesto digital: "Incidentes complexos são reduzidos a clips de um minuto como este", diz ele, concluindo que esta forma de disseminação é perigosa, "pode custar vidas". Muggah passa imediatamente a promover o programa Smart Policing, copatrocinado por seu anfitrião em Nova York, sob o olhar de aprovação de Vanessa.

O perigoso vídeo de um minuto que ele exibiu não é explicado. Não se sabe onde ocorreu, quem apanhou e "de quem é a culpa". Se houve, de fato, vítimas de uma violência, isto não vem ao caso.

O momento ilustra mais do que a tragédia de Amarildo e o vexame para o Instituto Google Ideas, que plantou, num seminário que se quer iluminado, uma policial envolvida num crime hediondo só investigado depois de semanas de protestos convocados na, hum, mídia social. A omissão do caso Amarildo pelo sofisticado Muggah não é esquecimento, claro. É, para traduzir um útil adjetivo inglês que não temos, "desingênua".

O momento ilustra um fenômeno crescente, criado pelo número reduzido de corporações que controlam a nova economia: o da tecnologia como uma câmara de eco sem oxigênio suficiente para dar vida a contexto histórico, social, econômico ou ético. A solução para a violência policial é mais tecnologia. Não há angústia individual ou coletiva que não possa ser amenizada se você assistir a uma conferência TED. A aplicação do know-how de Hollywood e do Vale do Silício para transformar ideias em espetáculos empacotados permite o encontro, no mesmo recinto, da policial indiciada num caso de tortura e morte e de empresários que se consideram benfeitores.

O lema da ONG Ted é "Idéias que merecem ser espalhadas". O do Google Ideas é "como a tecnologia pode ajudar as pessoas a enfrentar ameaças diante de conflito, instabilidade e repressão". Será que o gigante tecnológico empresta o slogan para as vítimas da instabilidade e da repressão criadas pela explosão da espionagem com a cumplicidade das companhias como o próprio Google?

Com o declínio do intelectual público, o desmonte da hierarquia da mídia analógica que selecionava, para o bem ou para o mal, as vozes com autoridade para discorrer sobre questões - do Estado Palestino à desnutrição infantil -, temos uma confluência do debate como entretenimento. E ninguém vai a um show para decidir se a liberdade de expressão e o direito à privacidade são forças opostas.

Tim Cook, o herdeiro de Steve Jobs, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg anunciam novos produtos com a pompa de um aspirante à presidência. A publicidade vende produtos, mascarando suas imperfeições e até seu potencial nefasto. "Adoramos inventar", diz o sub-carismático Jeff Bezos no show de lançamento de mais um Kindle. "Você pode ver o que está acontecendo com seus amigos", diz o esquisito Mark Zuckerberg, com a auto-importância de quem anuncia um tratamento para a malária. Hoje, corporações não vendem gadgets e sim santimônia. Um momento de heureca? Sim, mas de Arquimedes do obscurantismo.

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