Os afrescos digitais de Bill Viola

Grandes mestres da história da arte têm sido referência constante na exploração da imagem em movimento feita pelo americano Bill Viola nos últimos 10 dos seus 30 anos de carreira. Em trabalhos mais recentes, como The Quintet of Remembrance e Going Forth by Day, exibidos atualmente em Nova York, ele usa tecnologia de última geração para criar afrescos digitais inspirados em pintores como o holandês Hieronymus Bosch ou o italiano Luca Signorelli.Mas, além de conectarem a cultura medieval ou renascentista à do início deste século, vistas em meio às conseqüências dos ataques aos EUA no ano passado, as duas videoinstalações de Viola - produzidas antes deles - mergulham o espectador em reflexões sobre tempo e espaço que ressoam muito além da experiência intelectual. Com elas, o artista reafirma o que entende como responsabilidade social de um criador de imagens. Para ele, "há necessidade urgente de que essa criação seja parte de uma prática artística espiritual de verdade e não meramente um negócio empresarial".The Quintet of Remembrance, produzida em 2000 e adquirida pelo Metropolitan Museum, é a primeira peça de videoarte a entrar no acervo do museu. Going Forth by Day, suíte de cinco painéis inspirada também em afrescos, além de textos religiosos ocidentais e orientais, foi comissionada pelo Deutsche Guggenheim, de Berlim, e concluída no início deste ano. Ambas estarão em exibição em Nova York até domingo.Tempo - The Quintet of Remembrance investiga intensamente as emoções e interações humanas. Numa retroprojeção de vídeo em cor e sem som, três mulheres e dois homens expressam alegria, beatitude, raiva, medo, tristeza ou sofrimento. Três telas, reproduzidas à entrada da galeria onde o vídeo é exibido, formaram a base da qual Viola partiu para criar esse trabalho: Cristo Insultado, pintado por Bosch entre 1490-1500, que pertence à National Gallery de Londres; A Adoração dos Magos (1495-1505), de Andrea Mantegna, do J. Paul Getty de Los Angeles; e Mater Dolorosa (1470-1475), de Dieric Bouts, do acervo do Art Institute de Chicago.O quadro de Bosch é o modelo para a composição e para as expressões dos cinco personagens. Embora dividam o mesmo espaço físico, cada um deles está absorvido por uma emoção diferente, facilmente reconhecida. Mas não se sabe por que essas emoções estão acontecendo. Cada espectador cria uma história para encaixá-las.Viola usou um filme de 35 mm em alta velocidade para captar a performance real do grupo de atores, que demorou menos de um minuto. Mas no vídeo ela se desdobra gradualmente ao longo de 16 minutos e 19 segundos, acentuando o poder e a profundidade de cada emoção."Uma vez que se ralente o tempo, o que os recursos técnicos nos permitem fazer, parte-se automaticamente do mundo físico para o metafísico, porque o único lugar onde é possível fazer isso é a mente humana", comenta Viola numa entrevista a John Hanhardt, curador de filmes e videoarte do Guggenheim, incluída no catálogo que acompanha a exibição de Going Forth by Day. "Quando altero o tempo na sala de edição, a imagem é localizada no domínio da percepção subjetiva, uma espécie de representação mental, não ótica. Basicamente, é um estado alterado e é bastante ligado à memória."Ele cita o mestre budista japonês Dogen Zenji, do século 13, para explicar como entende o tempo. Zenji dizia a seus seguidores que olhassem para si mesmos e para todas as coisas como um momento no tempo e que a maneira pela qual o eu se mostra é a mesma do mundo todo. Depois de três décadas trabalhando com vídeo, Viola agora vê o tempo como uma substância palpável."É o material mais real que conheço", diz ele. "Aprendi a olhar para tudo como uma forma de tempo, e isso não apenas em termos de tecnologia. Essa é apenas a ferramenta, os recursos mecânicos correntes que permitem ver o mundo de uma nova maneira. O tempo tem sido o vínculo da disciplina espiritual há muito tempo."Ciclos - Em Going Forth by Day, Viola examina o tempo pelos ciclos da vida: nascimento, morte e renascimento. Gravados em vídeo de alta definição, os cinco painéis têm cerca de 35 minutos de duração e são projetados nas paredes da galeria simultânea e ininterruptamente. Ao entrar na sala, o espectador está também entrando na obra - da mesma maneira que faria para ver afrescos renascentistas, como os de Giotto, que representam seqüências narrativas em cronologia. Viola define esse trabalho como "um afresco cinemático", ou seja, que estuda os movimentos sem se referir às forças que os produzem.O som de cada painel mistura-se no espaço, criando um ambiente acústico para envolver os espectadores. No primeiro, Fire Birth, uma forma humana nada numa substância líquida avermelhada, como água iluminada por fogo na superfície, e "num estado inconsciente entre morte e renascimento", segundo descreve Viola.Nos outros painéis, a luz define a estação em que as cenas ocorrem. Em The Path, gente de todas as idades caminha por um bosque numa manhã de verão, lentamente, no mesmo sentido, como no fluxo constante da vida. Em The Deluge, pessoas passam diante de um casarão banhado pelo sol claro de outono, carregando coisas como mesas, cadeiras, quadros, poltronas, algumas falando sozinhas, e num ritmo cada vez mais urgente - até que um dilúvio explode dentro da casa e jorra para a rua, levando aqueles que esperaram demais para escapar.The Voyage foi feito em memória do pai de Viola, que morreu há três anos. Mostra uma pequena casa sobre uma colina, numa tarde de inverno, onde um velho está morrendo sobre a cama, tendo ao lado o filho e a nora; do lado de fora, um homem está sentado à porta, em vigília, e mais abaixo, na beira de uma praia, uma velha aguarda sentada enquanto carregadores põem os pertences do moribundo num barco. No fim, os dois idosos se encontram e partem no barco.Deserto - No último painel, First Light, uma equipe de resgate é vista numa madrugada de inverno, depois de trabalhar toda a noite tentando salvar vítimas de uma inundação no deserto. Quando não há mais esperança de se encontrar sobrevivente e aqueles que trabalhavam nas buscas vão embora, um rapaz emerge da água e voa para o céu.As cenas de desastre, resgate e redenção remetem ao que ocorreu depois do ataque às torres do World Trade Center, em Nova York. Mas foram criadas antes dos ataques terroristas aos EUA. Já há algum tempo Viola se interessa pela expressão da emoção humana, em escala social, quando ocorrem tragédias.Quando o Guggenheim o convidou para criar uma obra em 1998, ele passou a desenvolver suas idéias sobre o fim do mundo, mas lembra que tinha dificuldade de fechar o tema num trabalho só.As coisas entraram no lugar em setembro de 2001. "As imagens com que eu vinha trabalhando começaram a ter vida própria de uma maneira misteriosa", conta o artista. "Para mim, o resultado foi uma compreensão mais profunda da natureza e função das visões e profecias e da relação delas com a feitura da arte."Uma das principais fontes de inspiração para Going Forth by Day foi a série de afrescos sobre o fim do mundo criada entre 1499 e 1504 pelo italiano Luca Signorelli para a Catedral de Orvieto. Viola analisou as pinturas de perto numa viagem que fez à Itália em maio de 2001. Um dos detalhes que o impressionou foi um grupo de pessoas no canto de um dos painéis "fugindo em pânico, tentando escapar de dentro da própria pintura". Para ele, "as imagens dos jatos destruindo as torres do WTC têm hoje e terão no futuro o mesmo poder daquelas sobre as mais terríveis ações humanas vistas nos livros sagrados".Para o trabalho exibido no Guggenheim, Viola pesquisou imagens do apocalipse no Livro das Revelações, as visões do inferno e do purgatório de Dante e o Livro dos Mortos dos antigos egípcios, com visões sobre a jornada da alma para o outro mundo. "Depois de ler esses livros e outros textos espirituais de diferentes culturas, finalmente percebi que o objetivo principal não é entender o texto mas ser transformado por ele", diz Viola. "E isso dá uma dimensão inteiramente diferente na prática de fazer arte."

Agencia Estado,

08 de janeiro de 2003 | 11h32

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