Os 3, em versão canadense

Ganhar três prêmios em Cannes aos 19 anos - por um filme escrito aos 16, J'ai Tué Ma Mére -, com certeza ajudou a fazer a reputação do canadense Xavier Dolan. Aos 21, ele voltou ao maior festival do mundo com Amores Imaginários, que estreou na sexta-feira. A história de um triângulo amoroso e um dos vértices é ocupado pelo próprio Dolan, como ator. O filme é sobre um casal de amigos, ambos jovens - Dolan e Monia Chokri -, que se envolve com garoto sedutor, Niels Schneider. O Don Juan é definido pelo diretor como 'um lobo'. Quer ser amado, mas não ama ninguém. Transformado em objeto de desejo, estimula as fantasias eróticas dos demais. Na verdade, Schneider é uma imagem e como tal se apresenta.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h07

Os três - de novo, e agora mais punks do que no filme de Nando Olival, atualmente em cartaz. Dolan é homossexual assumido. Até certo ponto, ele recorre ao que se chama de imaginário gay, na maneira de filmar o corpo de Schneider, ao incorporar Dalida, com Bang Bang, à trilha. Mas ele não se considera um cineasta gay, conforme declarou ao Estado, numa entrevista na Croisette. "Você diria que a estética de Gus Van Sant é gay? Garotos de Programa (My Own Private Idaho) tem personagens bissexuais, mas não consigo ver o filme como gay. É mais ou menos como dizer que o fato de ter cabelos castanhos é determinante no meu cinema."

Xavier Dolan virou o que se pode chamar de celebridade do mundo do cinema. É um autor, ninguém discute isso, a esta altura já deve estar com o terceiro filme pronto e o quarto será feito em Hollywood. "Tenho filmado com os amigos, mas não vejo a hora de dirigir Julianne Moore, Meryl Streep, Kate Winslet ou James Franco. Eles são o tipo de atores com quem morro de vontade de trabalhar." Amores Imaginários nasceu como desdobramento de uma viagem que Dolan fez com Monia e Schneider. "Nos divertimos tanto que, ao voltar para casa, resolvemos prolongar o convívio. De que maneira? O mais óbvio seria por meio de um filme. Afinal, sou diretor de cinema. Mas não foi fácil desenvolver uma história. A primeira ideia foi nos transformar em irmãos, mas não andava. Com sexo, tudo ficou mais fácil."

Amores Imaginários conta a história do trio, acrescida de depoimentos de diversas pessoas sobre o amor. Mais um filme nas bordas da ficção e do documentário? "É uma ficção, mesmo que eventualmente eu use depoimentos e experiências reais." Um dos melhores testemunhos (o melhor?) é o da garota que fala de seus relacionamentos por meio da internet. Rende boas risadas, mesmo que o tom não seja de comédia rasgada. Dolan conta que houve espaço para improvisação, mesmo que estivesse amarrado a um roteiro. "Não acredito em pegar uma câmera e simplesmente sair filmando", afirma.

A trilha é fundamental. "Pense em Stanley Kubrick, ou em Quentin Tarantino. Ambos são excelentes criadores de trilhas, mas Kubrick é ainda melhor. Ele mistura o popular e o erudito de um jeito só dele. O que seria de 2001, Uma Odisseia no Espaço sem Zaratrusta ou de A Laranja Mecânica sem Singin' in the Rain?" Amores Imaginários tem Dalida, como já foi dito, e Knite, Pass This On. "Ambos foram invenções de Monia (Choukri). Ela me propôs e não resisti. Pass This On é sobre o que deveria ser uma festa, mas toma outro rumo. Vira o que não deveria ser. É o tema do próprio filme."

Como é fazer cinema no Canadá? "Montreal tem uma atmosfera incrível, e neste sentido é muito inspiradora. Mas não é fácil para um jovem como eu conseguir financiamento. Ninguém quis colocar dinheiro em J'ai Tué Ma Mère, não só pelo tema, mas porque eu era jovem demais e ninguém confiava no que sairia da minha cabeça. Terminei fazendo o filme com meu dinheiro e a ajuda de amigos. Quando Eu Matei Minha Mãe foi selecionado para Cannes, surgiram as possibilidades de parcerias. Todo mundo, a começar pelo Board de Cinema, queria colocar seu logo no filme. Cambada!"

E como é ser ator? "Facilita as coisas. Alguém poderia dizer o oposto, que complica. Você tem de estar em controle, cuidar dos atores, do plano, da técnica, do roteiro. Mas, ao interpretar, muitas vezes, ou quase sempre fica mais fácil ver logo o que funciona ou não com as palavras. Se você não consegue dizê-las, algo não funciona. Filmar não é complicado. Reclamam que meus filmes são lentos. Não acho. Eles têm o ritmo de que necessitam."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.