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Orwelliana

Qualquer semelhança de fatos no

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2013 | 02h08

texto abaixo com pessoas e situações reais é mera coincidência.

Mas logo vai deixar de ser.

Com o café vazio, de manhã cedo, escolhi a mesa preferida perto da janela. Ainda olhava o menu, quando ouvi a voz familiar da garçonete: "Então, foi tudo bem, como sempre?" Meio sonolenta, pensei que ela estava perguntando "o de sempre?" e já ia respondendo que, sim, queria duas doses de expresso no cappuccino, quando ela explicou: "Não, perguntei sobre a colonoscopia. Tudo bem como sempre, não?"

Como é que você sabe, perguntei, como o olhar esbugalhado de Janet Leigh em Psicose. "Ah, é o software. O da companhia de cartão de crédito. Eles têm este novo serviço que revela o que foi cobrado no cartão para os comerciantes. E o gerente me disse que, para acrescentar valor ao nosso serviço, eu devo puxar papo como os clientes habituais. Preferia que você tivesse comprado uma bolsa na Fendi mas a última cobrança que apareceu foi a da clínica onde você esteve ontem." E ela saiu, faceira, para a mesa seguinte, dando por encerrada sua falsa expressão de empatia.

Será que consigo me acostumar?

A Target telefonou para minha casa perguntando se os enjoos já passaram. Que enjoos? "Você não está grávida? Está aqui na minha tela. Você encomendou um aquecedor de mamadeiras e um porta-fraldas." Bati o telefone. Pior foi a minha vizinha de 85 anos. Ela divide um cartão de crédito com a neta e a moça foi batizada com o nome da avó. Pois a foto da minha vizinha apareceu numa loja on-line que cita depoimentos de clientes satisfeitas com seus vibradores. Os mais jovens parecem achar natural. Fui levar minha afilhada de 10 anos para o treino de basquete na escola. Jogo intenso e competitivo, com bloqueios e faltas que a técnica marcava. Durante um rebote, sobrou uma cotovelada para a menina com posse da bola. As adversárias se olharam furiosas, sem se encostar, e começou o bate-boca na quadra: "Só você mesmo, com um pai que teve a linha de crédito cancelada na Tiffany..." "E você? Sua mãe foi presa com LSD em Berkeley em 1979!" "E o seu irmão, que encomendou filmes pornôs da Amazon?" "Melhor do que a sua tia, que pagou pela lipoaspiração com um cheque sem fundo!"

Não quero me acostumar.

Mas a sensação de estar sendo vigiada é como uma bactéria que vai contaminando toda a rotina. Coloquei a garrafa de sabão de óleo de rícino no carrinho de compras. É bom para massagear o couro cabeludo. O rapaz do estoque me olhou fixo. Na TV acima do caixa, a imagem da atriz grávida indiciada por enviar cartas como o veneno ricina para o presidente Obama e o prefeito Bloomberg. Ela tentou implicar o marido, dizendo que havia óleo de rícino na geladeira e que ele "googlou" Obama e Bloomberg. Coloquei o sabão de volta na prateleira.

É como disse um senador que, como todos os seus colegas com acesso a briefings de inteligência, estava careca de saber que todos os nossos telefonemas são registrados e nossas comunicações por e-mail e SMS estão à disposição da Agência de Segurança Nacional: as corporações privadas já fazem muito pior há anos. Mas uma corporação privada não pode me prender, negar minha entrada no país nem ativar a Receita Federal para me perseguir.

Depois do obtuso George W., com seu olhar de coelho assustado, o sorriso sinistro e seu orgulho em ter sido um estudante medíocre, respiramos aliviados com a chegada de um professor de Direito Constitucional à Casa Branca. Barack não perde uma oportunidade de dar aula. Explicou que a violação da privacidade é uma inconveniência necessária. E, como quem acalma seus filhos no meio da noite após um pesadelo, garantiu que não está escutando nossas conversas. Com sua clareza didática, disse que acha bom ter a oportunidade de debater tudo isso com o povo americano. Ué, ele não passou os últimos quatro anos e meio escondendo tudo o que veio a público em três dias e só tocou no assunto depois do vazamento?

Bem, o Big Brother Obama parece sincero quando promete que não vai abusar da quantidade abusiva de dados que coleciona sobre a nossa vida. Ufa. Voltei a dormir. E sonhei que o senador ultradireitista Ted Cruz tinha sido eleito presidente em 2016. E agora, Barack?

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