Orwell, Waugh e o futuro

DANIEL PIZA

O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h10

O que pode haver em comum entre um escritor que tratou das altas classes com estilo entre satírico e religioso, avesso à política, e outro que escreveu jornalisticamente sobre as classes baixas, vendo política em tudo? Afora o fato de ambos terem nascido no mesmo ano, 1903, Evelyn Waugh e George Orwell eram não apenas diferentes, eram opostos em quase tudo: Waugh era conservador, esnobe, baixo, gordo e fascinado com a aristocracia; Orwell era trabalhista, alto, magro, conheceu a pobreza e se dedicou a denunciá-la. Sim, ambos foram estilistas do idioma inglês, mas Waugh sabia ser cômico, afetado e lírico, ao passo que Orwell era adepto do "menos é mais", direto e reto como um documentarista.

Pois a tese de David Lebedoff em O Mesmo Homem (editora Difel), com o subtítulo No Amor e na Guerra, é a de que Waugh e Orwell tinham muito mais em comum do que se imagina - ou de que eles próprios suspeitariam ou reconheceriam. "Embora tenham escrito para públicos diferentes, com vozes diferentes", alega o autor, "eles nos deixaram uma visão comum não apenas de sua própria época, mas também da nossa." A ênfase é no último ponto: Waugh e Orwell "detestavam profundamente a vida moderna", não apenas o totalitarismo que viram ascender entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, mas o futuro que entreviram.

Como Lebedoff descreve esse futuro? Nossos tempos, segundo ele, teriam visto "o fim do objetivo comum" e gerado uma vida fútil, "sem raízes e sem fé", cujo único propósito seria "o consumo de bens materiais". Outro grande escritor inglês do período, Aldous Huxley, é invocado, por meio de seu Admirável Mundo Novo, para Lebedoff afirmar que os três não gostariam de nossa época, "do vício dos videogames à decadência da família", em virtude da "perda da tradição, da civilidade e da comunhão". Para reunir numa única palavra, o mal é o "hedonismo" exagerado, em que "não existe passado, não existe futuro", como receita para não sofrer.

O mero enunciado dos termos usados por Lebedoff, que é americano e formado em Direito, mostra sua posição conservadora: o problema da modernidade é a perda de tradição e religião. Apenas em Waugh podemos ver concordância, e mesmo assim no Waugh de Memórias de Brideshead, seu acerto de contas com a fé, e não no Waugh de livros muito menos preocupados com o tema como Malícia Negra e Um Punhado de Pó, em que leva um humor à la P.G. Wodehouse a outro grau de liberdade e densidade. Não à toa, Lebedoff acha Brideshead o melhor; afinal, permite que pinte a imagem de um escritor horrorizado com a tal vida moderna, não a de um talento satírico que sabia rir de tudo e todos.

Quanto a Orwell, ele tinha, de fato, um lado mais nacionalista e tradicionalista do que se imagina, como se vê nos ensaios em que defende a família inglesa e seu senso comum (que, como se sabe, nem sempre é o mesmo que bom senso). Mas nunca foi religioso. Lebedoff tenta justificar isso ao dizer que, mesmo assim, Orwell se pautava por uma ética muito firme e humanista, mas daí a sugerir que ele criticaria a atualidade por "falta de fé" vai enorme distância. Suas críticas ao consumismo, sobretudo no romance 1984, eram indissociáveis de seu contexto de época: ele via na cultura da propaganda a índole do totalitarismo. Nunca pensou na democracia capitalista como alternativa viável a fascismo e stalinismo; defendia um socialismo pluripartidário, que aos poucos abolisse a luta entre classes.

Na verdade, o livro de Lebedoff não é uma longa argumentação em defesa da tese contida no título, que aparece mais no começo e no final. A maioria das páginas é ocupada pela descrição alternada das biografias de Waugh e Orwell, com bom poder de síntese e estrutura. É nesse sentido que O Mesmo Homem merece leitura.

A lembrança habilmente construída dessas duas grandes figuras intelectuais, de enorme talento verbal, é de fato muito bem-vinda numa época em que o culto das aparências e o empobrecimento da linguagem continuam crescendo, não em torno de Estados autoritários (o ponto de Orwell) e não por causa da decadência da aristocracia em favor de uma classe média vulgar (o de Waugh), mas como resultado de outras variáveis.

Lebedoff tem razão em aproximar Waugh e Orwell como dois autores que sempre recusaram escolas e modismos, prezaram o estilo cristalino e nunca foram ortodoxos em política. Ambos estiveram em guerras - Waugh na Segunda e Orwell na da Espanha - e testemunharam o mal que as ideologias causaram. Orwell nunca aderiu à esquerda radical, estatizante e hipócrita que ironizou em A Revolução dos Bichos e Waugh jamais foi um homem da direita tirânica, moralista e igualmente hipócrita. Tampouco foram "contraculturais" no sentido de valorizar o individualismo acima da responsabilidade, do respeito e do conhecimento. Eram leitores ávidos e sérios e desprezavam a cultura como simples diversão.

O escasso contato que tiveram prova alguns dos aspectos defendidos por Lebedoff e também as diferenças essenciais entre ambos. Waugh resenhou elogiosamente A Revolução dos Bichos, por seu "senso moral singularmente elevado", e no entanto afirmou que Orwell não ia à "raiz da questão" por não ter sido "tocado pelo pensamento religioso". Orwell foi mais generoso com Waugh, defendendo Brideshead das críticas de que seria um romance sobre "a nostalgia da adolescência", e não sobre "a colisão entre o comportamento decente do dia a dia e o conceito católico de bem e mal". Em outras palavras, esse Waugh tardio recriminou em Orwell o agnosticismo, mas Orwell não recriminou o catolicismo do Waugh tardio.

Eles se encontraram uma única vez, no verão de 1949, no sanatório onde Orwell cuidava da tuberculose que o mataria em janeiro do ano seguinte. Não se sabe o que conversaram. Waugh disse depois que viu Orwell "muito perto de Deus". Mas não foi nesse endereço que estiveram mais próximos um do outro.

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