Orwell por um agitador

Christopher Hitchens passa por cima dos defeitos do autor de 1984 - e provoca

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

O ensaio A Vitória de Orwell, do jornalista inglês Christopher Hitchens, deve ser lido menos como um texto biográfico e mais como um exercício de autoanálise. Claro, o assunto do livro é o escritor George Orwell (1903-1950), mas quem escreve é tão identificado com a figura do autor de 1984 que Hitchens parece estar meditando sobre suas qualidades e defeitos em voz alta. Polemista profissional, o homem que escreveu Deus Não É Grande faz de seu estudo sobre Orwell uma hagiografia. Passa por cima do antissemitismo do escritor, de sua homofobia e outros preconceitos para fazer de Orwell quase um santo - ou pelo menos um profeta engajado, um herói que previu o fim do stalinismo e se manteve ao mesmo tempo como representante cosmopolita do trotskismo.

O nome de Orwell aparece invariavelmente associado a pelo menos um adjetivo positivo em cada parágrafo do livro. Pós-colonialista, libertário, intelectual engajado, mas não misógino e delator de comunistas durante a Guerra Fria. Hitchens perdoa um ou outro "chavão" sobre judeus ou homossexuais que Orwell deixou escapar, mas não os defeitos de seus inimigos, como os escorregões do decano de Cambridge, Raymond Williams, atingido por uma saraivada de balas por não considerar 1984 uma obra-prima ou um livro visionário, criticando ainda sua sintaxe. Hitchens, para provar que Orwell estava certo, cita a Coreia do Norte como protótipo mundial do Estado stalinista. Por que stalinista, e não comunista? Porque o Big Brother de lá, o "Estimado Líder", descenderia de uma linhagem ditatorial só possível numa necrocracia. Hitchens, homem de esquerda, dá um chute no presidente "eterno" e no seu filho, o "líder supremo" Kim Jong-il, ambos herdeiros de Stalin, garantindo para si o posto que foi de seu biografado, o do socialista que teria antecipado o colapso do império comunista.

Hitchens defende que Orwell concebia a Guerra Fria como uma competição entre superpotências, não como uma "luta unidimensional contra a ameaça totalitária", o que justificaria seu papel "pioneiro" de guerreiro frio a entregar 86 militantes comunistas, tornando-se paradoxalmente um colaborador de sua fictícia Polícia do Pensamento (do livro 1984). A justificativa de Hitchens: a URSS era aliada de Hitler quando Orwell cooperou com o Departamento de Estudo de Informações (IRD), uma espécie de SNI britânico. Orwell, argumenta, fez bem em delatar. Sua fidelidade ao escritor vale uma leitura atenta, quase tanto como a que merecem os livros de Orwell, especialmente os mais ensaísticos, como O Caminho para Wigan Pier, em que descobre os pobres mineiros de Lancashire e Yorkshire, e Dias na Birmânia, em que denuncia com raiva e vigor o colonialismo inglês.

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