Orson Welles e a história de 'A Mulher do Padeiro'

Filme é a prova de que ator e trama valem mais que direção e edição

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de julho de 2014 | 02h00

Orson Welles disse certa vez que um grande filme não depende necessariamente de direção nem montagem. Parece estranho que o ator e diretor do cultuado Cidadão Kane tenha afirmado isso, mas, às vezes, reiterou Welles, um grande filme não precisa mais do que de uma grande história, e de um grande ator. A prova é A Mulher do Padeiro, que a Cult Classics está lançando em DVD. Adaptado de Jean le Bleu, de Jean Giono, o filme conta a história do padeiro e sua mulher. Ela o abandona, ele entra numa crise profunda e não consegue mais produzir o pão. A comunidade ressente-se e se une para trazer a mulher de volta.

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard diz que Marcel Pagnol teve tudo - pois é ele o diretor de La Femme du Boulanger. Na literatura e no cinema, Pagnol foi um autor completo - teve a glória, dinheiro, fama, grandes tiragens e a Academia Francesa. Ele nasceu com o cinema, em 1895, e morreu em 1974. Desde cedo atraído pelas imagens em movimento, criou a revista Cahiers du Film, em que atacava o cinema mudo. Nada sai da câmera, disse numa entrevista aos Cahiers du Cinéma. O que é preciso é um diretor que saiba escolher e orientar os atores. Orson Welles o amava por isso.

Pagnol irrompe na tela com o advento do sonoro. Seu cinema se beneficia do regionalismo, das paisagens da Provence e, principalmente, do sotaque meridional. César, Topaze, A Mulher do Padeiro, La Fille du Puisatier, Topaze (de novo), Manon des Sources. Pagnol amava os atores e o teatro, e como diz Tulard muitas vezes rompe com as convenções para arejar seus filmes. Fala-se muito em seus filmes, mas ele consegue evitar o verborrágico. O mérito tem de ser compartilhado com Raimu, Charpin, Fernandel. Privado de seus atores míticos - Raimu morreu nos anos 1940, aureolado como o maior e mais popular ator francês de seu tempo -, o cinema de Pagnol começa a decepcionar.

Mas ele nunca saiu de cena. Em 1990, Yves Robert realiza um díptico - A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. Pouco antes, em meados dos anos 1980, Claude Berri adaptou Jean de Florette e A Vingança de Manon (Manon de Sources). Yves Montand é César, Gérard Depardieu faz Jean e Daniel Auteuil é um inesquecível Ugolin. Esse último tem tentado reativar o encanto do linguajar de Pagnol. Para sua estreia na direção, Auteuil escolher A Filha do Pai/La Fille du Puisatier. E ele adapta agora a trilogia marselhesa do autor - Marius e Fanny já estão em pleno processo. César, mais caro, vai esperar pelo resultado dos dois primeiros na bilheteria.

A trama do filme de Pagnol, que depois virou peça, se passa num vilarejo no sul da França que não tem muita sorte com seus padeiros. O anterior se enforcou quando Aimable chega para substituí-lo. Aimable não tem esse nome por acaso, é o mais amável dos homens e talvez seja por isso que sua mulher o abandona para ficar com o pastor fogoso. Ela se chama Aurélie e é interpretada por Ginette Leclerc. A releitura do texto original talvez valha a Pagnol, via Giono, uma acusação de machismo. Tradicionalmente, ele sempre foi o autor da França profunda, ligado à terra e a valores essenciais.

Essa ausência de sofisticação se manifesta em diálogos e situações veristas, e a tal ponto que Pagnol, como o próprio Jean Renoir dos anos 1930 - de obras como La Chienne e Toni -, é considerado precursor do movimento neorrealista, que só surgiu no cinema italiano na década seguinte. É interessante que todos esses diretores tenham tido atores fetiches. O de Renoir, foi Michel Simon. O de Pagnol, Raimu, pseudônimo de Jules Auguste Muraire. Ator de teatro, Raimu protagonizou, ou coprotagonizou a maioria dos grandes filmes do diretor. Seu registro tragicômico o leva a limites de intensidade cômica e dramática na mesma cena, e era isso que fascinava Orson Welles.

Consagrado no rádio e no teatro, Orson Welles chegou a Hollywood para provar - se é que ainda era necessário - que o cinema era uma arte autônoma. Pagnol não acreditava nessa autonomia. Existem cenas que são antológicas. As tentativas de diálogo de Aimable com a mulher, no fim de noite, na cama, quando ela foge com evasivas e a conspiração em marcha, quando o marquês, o professor e os demais notáveis do lugarejo definem sua estratégia para devolver a trânsfuga Aurélie ao marido. O importante é que essa história simples não era ingênua. Na França dos anos 1930, um pouco por influência da Espanha, que vivera sua Guerra Civil, a Frente Popular coloca o socialista Léon Blum no poder e ele, mesmo se distanciando dos republicanos espanhóis, promove importantes mudanças sociais. Blum e o Front Populaire permanecem no poder até 1938, que não por acaso é o ano de A Mulher do Padeiro. O movimento popular, mesmo apartidário - pelo pão de cada dia -, não deixa de ter uma dimensão política. Dois anos mais tarde, lançado nos EUA, La Femme du Boulanger foi o melhor filme estrangeiro para o The New York Times e o National Board of Review.

A MULHER DO PADEIRO

Título original: La Femme Du Boulanger.

Direção: Marcel Pagnol. Distribuição: Cultclassic.

Gênero: Drama (França/ 1938, 130 min.).

Preço: R$ 29,90.

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