Orquestras, universo em transformação

Saída de Zarin Mehta traz mudanças na Filarmônica de NY

Daniel J. Wakin, The New York Times,

03 de outubro de 2010 | 00h09

Os músicos tocam, o regente rege o concerto, o público aplaude e todos vão para casa. Pelo menos costumava ser assim. O anúncio, na segunda, de que Zarin Mehta, de 71 anos, deixará o cargo de presidente da venerável Filarmônica de Nova York veio em um momento em que a alta administração da orquestra reavalia o papel da sinfônica na sociedade americana.

Mehta, que também exerce o cargo de diretor executivo, informou que sairá após o fim da temporada de 2011-12, ao término do seu contrato de 12 anos.

A sua substituição coincidirá com as novas aquisições da orquestra e com a mudança gerencial. Alan Gilbert, de 43 anos, foi contratado na temporada passada como diretor musical, assim como Gary W. Parr, de 53, um destacado executivo da área de investimentos, que exercerá as funções de presidente do conselho.

O fato de Mehta ter feito o anúncio com bastante antecedência dará a Parr e ao conselho tempo para encontrarem um sucessor, disse o maestro, acrescentando que, quando se for, Gilbert terá completado três temporadas e planejado uma quarta em seu contrato de cinco anos.

O novo executivo terá de administrar duas preocupações imediatas da filarmônica: a reforma, há muito esperada, da casa da orquestra que está em más condições acústicas, Avery Fisher Hall, e a procura de uma importante residência de verão - uma versão em Nova York do Festival Ravinia da Sinfônica de Chicago ou de Tanglewood da Sinfônica de Boston. As soluções não foram possíveis para Mehta.

Muitas coisas já mudaram na filarmônica, com a introdução dos seus concertos ao vivo no Itunes, um âncora das transmissões que é uma celebridade (o ator Alec Baldwin) e um site enorme na internet, nyphil.org, sem falar na marca de Gilbert, cada vez mais evidente na programação.

Mas no futuro, a nova direção da filarmônica provavelmente terá de tratar de problemas maiores, como os executivos da instituição já estão fazendo por todo o país, inclusive questões fundamentais como custear suas atividades e entreter o novo público que se criou em um mundo eletrônico, digital, e frequentador das redes sociais.

"Isso tem a ver com a música que tocamos, com a integração de orquestra e comunidade", afirmou Deborah Borda, presidente da Filarmônica de Los Angeles. A reformulação afeta o marketing e iniciativas na mídia, disse. "É um universo em transformação."

Na Filarmônica de NY, Parr disse que era cedo para apontar qualquer mudança concreta. "Espero que possamos definir o que é realmente importante e se precisaremos fazer algo diferente do que fizemos há dez anos."

A recessão pressiona a orquestra e determina o montante das doações e verbas públicas que representam a maior parte das suas receitas. Os déficits são endêmicos, US$ 4,5 milhões na última temporada, e a subvenção do governo caiu de US$ 212 milhões para US$ 170 milhões durante a década de Mehta. Para ele, a soma adequada para orquestra do tamanho da filarmônica seria de US$ 240 a US$ 250 milhões.

Os custos fixos das aposentadorias e consideráveis aumentos salariais nas últimas décadas tornaram a instituição muito cara, embora diversos músicos argumentem que o dinheiro mantém sua altíssima qualidade, e que os administradores têm a obrigação de levantar recursos.

Nos últimos anos, a administração conquistou melhorias salariais em várias orquestras. Mas os dois lados brigam periodicamente nas negociações trabalhistas. O contrato de Filarmônica de NY expira em setembro do ano que vem e uma das últimas tarefas importantes de Mehta será negociar um novo acordo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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