Orquestra, maestro e pianista dos sonhos

Sinfônica da Baviera chega ao Brasil com Mariss Jansons e Mitsuko Uchida

João Marcos Coelho, especial para O Estado de S. Paulo,

11 de maio de 2014 | 02h23

Serão, sem dúvida, dois dos mais aguardados concertos de 2014. Quando soar o acorde em sol maior ocupando oito dos dez dedos da pianista Mitsuko Uchida que enuncia, docemente, o primeiro tema nos cinco compassos iniciais do concerto nº 4 de Beethoven, terá terminado uma longa espera do público brasileiro. Aos 65 anos, ela é uma das estrelas mais brilhantes - e recatadas - do piano clássico. Grava o que quer, com quem quer e como quer. Refinada, dedica desde 1999 as férias de verão no hemisfério norte, entre junho e agosto, à direção artística do Festival de música de câmara de Marlboro. As primeiras três semanas do festival são dedicadas apenas aos ensaios - só nas quatro semanas seguintes os músicos mostram o resultado em concertos.

Nas últimas décadas, ela recusou seguidos convites para tocar no Brasil. O que finalmente a traz ao Brasil são seus parceiros preferidos na execução do concerto nª 4: a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera e seu titular Mariss Jansons. Eles já mostraram esta leitura de Beethoven várias vezes na Europa. e farão o mesmo nas duas noites na Sala São Paulo, amanhã e terça, Amanhã, o programa completa-se com a mais famosa das quinze sinfonias de Dmitri Shostakovich, a quinta; na terça, interpretam a segunda sinfonia de Johannes Brahms.

O derradeiro motivo para disputar até a tapa um lugarzinho para os concertos de hoje e amanhã na Sala São Paulo abrindo a temporada 2014 da Sociedade de Cultura Artística é o maestro Mariss Jansons. Depois de comandar, na última década, duas das mais estreladas sinfônicas do planeta, anunciou há dez dias que não renovará seu contrato com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, que termina em junho de 2015. Ao mesmo tempo, o maestro letão que fascinou o público brasileiro no ano passado com a orquestra holandesa, anunciou que acaba de renovar até 2018 seu contrato na Baviera, permanecendo à frente de um grupo que nada fica a dever à Concertgebouw ou às filarmônicas de Berlim ou Viena.

Não acredita? Então ouça com atenção o mais recente CD da dupla Jansons/Baviera, lançado este mês no mercado internacional pelo selo BR-Klassik. Em registros ao vivo, eles interpretam duas sextas sinfonias-chave do grande repertório orquestral: as de Tchaikovsky e Shostakovich, não por acaso especialidades de Jansons, ex-assistente de Evgeni Mravinsky em Leningrado. Basta conferir dois movimentos-mamutes desta gravação para se convencer de que sua escolha foi correta: o Adagio-Allegro non troppo de quase 20 minutos da Sinfonia Patética, estreada em 28 de outubro de 1893 em São Petersburgo, nove dias antes da morte de Tchaikovsky; e o Largo inicial, de quase 16 minutos, da sexta de Shostakovich, de 1939. Manter a tensão em movimentos lentos, sabe-se, é um dos maiores desafios de qualquer orquestra. Estas performances são extraordinárias, neste sentido. Mais um argumento decisivo a favor da Baviera: a recentíssima integral Beethoven, encadeando obras contemporâneas inéditas para cada sinfonia (BR-Klassik, setembro/2013).

Faço agora as vezes de advogado do diabo. Isso não quer dizer que as relações de Jansons com a Concertgebouw estejam estremecidas. Provavelmente, a razão de sua atitude deva-se mais à autopreservação física (ele sofreu um enfarte no pódio em 1996). Um exemplo igualmente extraordinário e muito recente da qualidade de seu trabalho com a orquestra holandesa: um CD da série "RCO Live" com o Requiem de Mozart e solistas do porte de Bernarda Fink, Mark Padmore e Gerald Finley, lançado este mês.

Quanto a Mitsuko Uchida, sua última gravação é o magnífico CD do ano passado para a Decca, o terceiro dedicado à obra pianística de Schumann, com a segunda sonata, o Canto da Floresta e os crepusculares Cantos da Aurora. Em 2014, ela vem se dedicando basicamente a Beethoven: em abril, tocou as Diabelli nos EUA no Carnegie Hall e o concerto nº 3 (com a Filarmônica de Londres), antes de embarcar para a América Latina com o quarto concerto (uma turnê que começou em Frankfurt dia 1º e termina dia 17 no Carnegie Hall). Mês que vem ela sola no dia 5 concerto nº 5 com a Orquestra Tonhalle em Zurique. E no dia 27 de junho inicia o Marlboro Festival, um mergulho na música de câmara onde ela afirma renovar-se espiritualmente por meio do contato com os estudantes e novas gerações de intérpretes.

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