Originalidade domina gramado

Com 180 Graus e O Último Romance de Balzac, mostra gaúcha confirma a peculiaridade dos filmes desta edição

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

Fora de competição. Cena de Elvis e Madonna, de Marcelo Lafitte, com Simone Spoladore      

 

 

 

 

 

Talvez seja o aspecto mais interessante desta seleção de Gramado. Os filmes começam a se suceder e nenhum se parece a outro. Só que, à originalidade, se superpõe a peculiaridade de cada projeto. Do Brasil veio, no sábado à noite, um thriller que não é bem um thriller, mas um quebra-cabeça, de Eduardo Vaisman. 180 Graus é sobre o triângulo amoroso formado pela dona de uma editora, o ex dela, jornalista, que virou produtor de laranjas, e o atual namorado, que escreveu um livro de sucesso. O livro teve origem numa caderneta de anotações que o cara encontrou. Lá pelas tantas, vira um drama - a caderneta aponta para um plágio, mas ele não copiou. Criou um universo a partir de nada. O problema é que os fios vão desvendando uma suspeita sobre a tal caderneta. A quem pertencia? Como e por que foi parar nas mãos do escritor? E por que ninguém fala nada? Por que todo mundo oculta, mente?

 

Embora seja frágil e até nulo como thriller - não é difícil antecipar, ou intuir as responsabilidades em 180 Graus -, o filme tem um aspecto interessante como produção. É um filme de baixo orçamento feito com tanto capricho que parece mais caro do que realmente custou. E os personagens são todos podres como as laranjas putrefatas, caídas ao solo. Com um pouco de esforço, pode-se ver no filme desejo do diretor Vasman de refletir sobre os laranjas, esses personagens que, nos últimos anos, estão cada vez mais frequentes na vida política brasileira.

 

O outro brasileiro, domingo à noite, surgiu de uma proposta bem distinta. Misto de ficção e documentário, O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, especula sobre um livro inacabado do escritor francês Honoré de Balzac que teria sido completado por meio da psicografia. Foi em 1965 que Waldo Vieira, que havia trabalhado com Chico Xavier, psicografou Cristo Espera por Ti, que teria sido ditado pelo espírito de Balzac. O filme entrevista o psicólogo que se dedicou a estudar o romance e a investigar sua veracidade. Também encena, como um filme mudo, trechos do livro La Peau Du Chagrin, que teria fornecido a origem do livro inacabado. Tudo isso serve a uma ambiciosa, mas um tanto cansada discussão sobre a obra de Balzac e a uma interpretação do artista como Fausto moderno, face à tentação do suicídio.

 

O tema do espiritismo está no ar, mas não se pode dizer que Geraldo Sarno esteja seguindo uma corrente. O filme, de qualquer maneira, não causou impressão muito forte, até porque parece meio desconjuntado. O filme dentro do filme ganha a parte final e o autor parece se esquecer das formulações anteriores, que vão depender da boa vontade do público para ordená-las. A impressão é de que, com exceção de Bróder, na noite de abertura, e Cinco Vezes Favela Agora por Nós Mesmos, fora de concurso, a seleção brasileira, embora fortemente autoral. Está meio à deriva em Gramado 2010. A seleção latina, porém, não está muito melhor.

 

Surpresa. Há alguns anos, o diretor argentino Pablo Meza surpreendeu em Gramado com Buenos Aires, 100 Km, sobre a garotada nesse lugarejo de fim de mundo. É como se um dos garotos tivesse ido para a capital argentina em La Vieja de Atras, mas ele não tem condições de se manter e vai viver de favor no apartamento dessa idosa que, em troca de casa e comida, apenas exige que ele converse com ela. O garoto passa completamente passivo pelo filme. Somente num momento sai do sério com sua hospedeira. É diálogo de surdos, pois nenhum se interessa pelo outro, o que faz do filme uma bizarra experiência de incomunicabilidade.

 

Gramado, este ano, aumentou o número de dias de exibição e de debates. Isso só foi possível porque gorou outro projeto de um dos patrocinadores, que se viu com verba sobrando para bancar a experiência. Pelo padrão dos anos anteriores, o festival teria começado ontem à noite. Já houve dois dias e três noites de programas duplos. Dois filmes à tarde e dois à noite. Desses seis programas iniciais, pouca coisa (Bróder e Cinco Vezes Favela) permanece com o público. Mas são dois filmes importantes, que mostram a visão de dentro da periferia, pelos jovens que nela vivem. Esse cinema não se sustenta somente pela qualidade artística, que existe e é sólida. Ele carrega, na experiência de seus autores, na cor da pele, etc., a própria contrapartida social. Mas seria um erro ver esses filmes somente dessa maneira. Eles são bons porque são bons, não porque exploram o sentimento de culpa do espectador de classe média, dando voz a cineasta e atores tantas vezes vítima de preconceito.

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