Originais do Samba

Disco raro em que Plínio Marcos conta histórias de sambistas de São Paulo finalmente sai em CD, com direito a show

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h06

Quem quiser saber o nome de Plínio Marcos (1935-1999) nem precisa perguntar para os pagodeiros de um certo lugar. Consagrado autor de clássicos da dramaturgia brasileira, como Navalha na Carne, O Abajur Lilás e Dois Perdidos numa Noite Suja, ele também foi contundente cronista do homem comum de seu tempo e um aficionado do samba paulista. Um importante registro dessa atividade do teatrólogo sai agora do limbo da memória com o relançamento do raro LP Plínio Marcos em Prosa e Samba, Com Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro. Raro não por ser item considerado "mosca branca" entre colecionadores, mas pelo valor histórico de seu conteúdo e que poucos conhecem.

Lançado pela gravadora Chantecler em 1974, o disco chega enfim ao CD pela Warner, sob a curadoria do músico e pesquisador Charles Gavin, com a colaboração de Aninha Barros, filha de Plínio. "É um registro imprescindível para compreender e discutir a identidade cultural de São Paulo", assinala Gavin.

Balbina de Iansã é outro disco de Plínio ligado ao samba que Aninha e seus irmãos Kiko Barros e Léo Lama pretendem relançar. Prosa e Samba também deve sair novamente em vinil. "Estamos vendo um esquema na República Checa, para poder fazer o disco lá", conta Aninha. "Estamos esperando apoio, vamos ver se a Warner se interessa."

Como lembrou a Aninha o jornalista Tárik de Souza, autor do esclarecedor texto que acompanha o CD, "o próprio paulista não acreditava no samba paulista". "Então foi superimportante esse disco com apoio do meu pai a esses sambistas, para sair daquele círculo de Adoniran Barbosa", de quem Plínio também era amigo, aliás. "São sambistas da maior qualidade que estão esquecidos, e isso é um absurdo."

Na época do show que originou o disco, Plínio mantinha uma coluna no extinto jornal Última Hora. "Nessas colunas ele vai contando todas as histórias, desde anunciar a estreia do show Plínio Marcos e os Pagodeiros, até entrevistas, como a do Zeca. Essas coisas todas a gente pretende colocar no encarte do vinil", diz Aninha. A foto que ilustra esta página, com a presença de Octávio Geraldo (o Talismã), carioca radicado em São Paulo, também deve estar no relançamento em LP.

Um show com direção musical do violonista Kiko Dinucci, em setembro no Itaú Cultural, vai marcar o revival do disco, em que Plínio conta as tocantes histórias dos três sambistas paulistas, todos trazendo para o samba paulistano a bagagem do interior. Essas histórias dão indícios das características do estilo de composição de cada um, entremeando 13 sambas significativos de seu cancioneiro, como documentos de identidade, dessas trajetórias, das migrações.

"A ideia do show é fazer uma releitura, botar o disco na roda, discutir musicalmente esse álbum", diz Dinucci. Além dele, estarão no palco Juçara Marçal, Thiago França, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral. "Estou chamando pessoas da velha guarda ligadas ao samba, que tenham desenvoltura, veneno. Devemos chamar outros convidados ligados ou ao samba paulista, ou à figura do Plínio."

O show deve manter a mesma sequência das faixas do disco, com outras mais e a narração de Plínio em off, já que cada trecho de história tem importante ligação com a música que se segue. "Não queremos que fique com cara de teatro, mas de show mesmo", diz Aninha.

Para Dinucci é impossível reproduzir os arranjos do disco: "Ele é muito peculiar, com músicos e batuqueiros daquela época. Aquele tipo de batucada não se encontra hoje em nenhum lugar, era de uma época em que os ritmistas criavam sua marca registrada. O disco é um dos maiores exemplos da batucada paulista, tem ecos do samba rural, vindo das plantações de café do interior", explica. "E a narração e texto do Plínio parecem um filme. Não me lembro de nenhum disco de samba gravado nesse formato."

Das quebradas do mundaréu. "Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. Lá onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove, que só berra da geral sem nunca influir no resultado." É assim que Plínio abre sua narrativa, sem meias palavras, como sempre foi.

Aninha tinha um ano quando Prosa e Verso foi gravado, e diz que agora está se aprofundando mais nessa história. Ela lembra que a ligação de Plínio com o samba é anterior a esse disco, e vem da criação da Banda Bandalha. Uma das recordações mais fortes que tem do pai nesse aspecto é do dia de seu velório, no Teatro Sérgio Cardoso, em que os batuqueiros da escola de samba Vai-Vai entraram tocando em sua homenagem, como bem lembra o jornalista, ator e biógrafo de Plínio em seu artigo na página 4 deste caderno, entre outros episódios.

"Meu pai era muito amigo desses sambistas e manteve a amizade com eles até o fim. Eles faziam muitas rodas de samba em casa", conta Aninha. "Tem uma música de Geraldo Filme nesse CD, Silêncio no Bixiga, que me marcou muito. Foi esse samba que a Velha Guarda entrou cantando no velório dele: 'Plínio Marcos está dormindo.' Foi bem forte. Inesquecível. Tinha a cara do meu pai."

Acervo. Além dos projetos dos discos, Aninha e seus irmãos trabalham para preservar todo o acervo de crônicas, livros, peças teatrais e outros textos de Plínio, que durante muito tempo viveu de vender de mão em mão os próprios livros, impressos de forma artesanal. Era comum cruzar com ele nas portas de teatros, nas noites do extinto Bar Redondo, na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua Teodoro Baima, na frente do Teatro de Arena, de sandália de couro, macacão e bolsa a tiracolo, puxando conversa e oferecendo seus trabalhos. O que os filhos pretendem agora é revelar para outra geração algo mais profundo do que a figura que se tornou folclórica.

Nas caixas de manuscritos e recortes de jornal cuidadosamente organizados pela viúva de Plínio e mãe de seus filhos, a atriz Walderez de Barros, há textos valiosos. Era Walderez quem datilografa os artigos para enviar ao jornal. Esses escritos à mão, caprichosamente, por Plínio servem, como diz Aninha, para provar que, "para quem era tachado de analfabeto", ele tinha uma bela letra. "Queremos conservar isso, digitalizar tudo. O projeto já foi aprovado na Lei Rouanet e agora estamos esperando patrocínio, vamos encaminhar para a Funarte. A ideia é disponibilizar tudo na internet para quem quiser pesquisar."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.