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Originais do rap

Em novos discos, MV Bill e Emicida impõem vozes femininas ao gênero

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2013 | 02h15

Não é o velho torneio Rio-São Paulo, mas eles são o que há de melhor na cultura hip-hop de cada praça.

Do Rio, MV Bill toma as ruas de novo com um fresquíssimo disco autoral, Monstrão (selo Chapa Preta). É o sexto álbum de MV Bill, sedimentando uma carreira de 20 anos do rapper, escritor, cineasta, ator e ativista que começa em 1992 (ele só conseguiu lançar o primeiro disco em 1999).

Em São Paulo, Emicida edifica novas fundações para o rap com o novíssimo álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (Lab_Fantasma), breve nas lojas. É o seu primeiro trabalho oficial de estúdio, após duas mixtapes e dois EPs. Já tem três músicas lançadas: Crisântemo e Hoje Cedo, com clipes, e Zoião (da trilha da novela Sangue Bom, da TV Globo).

Dois discaços, cada qual no seu quadrado. MV Bill é mais carudo, apesar de seu disco representar praticamente uma "chicobuarquezação" do rap - a voz feminina é a mais forte do trabalho.

Musicalmente, Emicida destroça, emparelhando forças com Quinteto em Branco e Preto, Tulipa Ruiz, Wilson das Neves (que ele convoca chamando respeitosamente de "Seu" Wilson), Fabiana Cozza, entre outros.

MV Bill falou ao Estado sobre o álbum. Emicida estava enrolado com gravações em Nova York com o rapper e amigo Rael (que participa do novo disco de Emicida, na faixa Levanta e Anda) e com o grupo Meta and the Cornerstones, uma banda de senegaleses que misturam rap com reggae. Mas seu novo trabalho chega à rede todo dia, em partes.

Bill concorda que tenha exacerbado o lado feminino no seu trabalho. "Uma coisa que me incomoda é que no hip-hop, às vezes, meus pares acabam cometendo uns crimes de preconceito. É algo que a gente luta bastante para extirpar de dentro do hip-hop. O espaço dedicado às mulheres dentro do rap é secundário, fazendo backing vocal para alguma banda, fazendo pano de fundo", afirmou. "Nesse disco, minha irmã Kamila CDD ocupa um papel crucial em músicas de maior destaque do disco, como O Soldado que Fica e Estilo Vagabundo Parte Três. Ela enfrenta uma imagem totalmente repressora do comportamento masculino."

Bill também investe contra outros dogmas do gênero. Como em Eu Vou, que se desenvolve sob um sample de Caetano Veloso cantando Alegria Alegria. "O Caetano teve de usar uma metáfora para dar o nome à música, na época da ditadura. Daí, quando o DJ Luciano, parceiro de São Paulo, que mistura muito rap com música brasileira, me mandou essa base, eu fiz essa brincadeira com o rap. Que tem essa coisa de não poder ir à mídia, de não poder ir à TV, de não poder falar com um jornal como o seu, coisa que eu acho uma tremenda besteira", explicou Bill.

Em O Soldado que Fica, MV Bill fala sobre o processo de pacificação de favelas com UPPs no Rio e "da ineficiência de uma política de segurança que só investe no braço armado, o braço policial". Conta uma história do traficante que é obrigado a ficar para dar cobertura aos que fogem. Ele sabe que vai morrer, mas a mulher não se conforma com seu destino. O vídeo já tem mais de 1 milhão de visualizações no YouTube e conta com as participações de Kamila CDD e Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila.

Em nove faixas, Bill escalou DJs do País todo como seus escudeiros. Como o jovem MC Rapadura, do Ceará, que mistura Luiz Gonzaga e embolada com o rap. "Tenho dois programas de rádio nos quais só toco rap brasileiro. Faço sempre essa pesquisa, essa viagem. O Brasil tá começando a descobrir suas características e formas de fazer hip-hop. Cada região acaba por criar sua própria característica", considera.

Bill comentou o assassinato do funkeiro MC Daleste, em São Paulo ("Não se sabe o que tem por trás, mas ver alguém ser apagado assim em cima do palco é uma barbaridade", disse), e os protestos pelo Brasil todo: "Fico muito orgulhoso de fazer parte de uma cultura, o hip-hop, que nunca dormiu, sempre esteve acordada para essas questões. Tenho músicas, como Só Deus Pode Julgar e Declaração de Guerra, de 2002, que chamam o povo para a rua, para a necessidade de se rebelar, mas que compus no meu imaginário. Embora fosse um desejo, nunca tinha visto isso acontecer. É muito importante o que está acontecendo nesse momento".

O novo disco de Emicida vai provocar um tsunami nas convenções do hip-hop em 14 faixas. Como MV Bill, ele põe o rap para dialogar com vozes femininas: Elisa Lucinda, Tulipa Ruiz, Pitty, Adriana Drê, Juçara Marçal e Fabiana Cozza. Investe em uma busca de sonoridade que não é meramente discursiva, que acha sua brecha numa simbiose. Ao mesmo tempo, Emicida consolida-se como um dos grandes cronistas de São Paulo em sua geração. "Seu Zé do Doce socorreu. Seu Zé é a representação do Estado no Jardim Fonteles. Talvez até hoje", canta Emicida, em Crisântemo.

No rap de Emicida, nenhuma opinião é média, nenhuma imagem é superficial. "Somos a contraindicação do carnaval/Nagô de tambor digital/Fênix da cinza de quarta/Total/MST da rede social/Sabendo de onde vêm as crianças/Alarma/Assim como você sabe de onde vêm as armas/Grana de judeu/ Petróleo árabe", canta o rapper, ladeado por Juçara Marçal & Fabiana Cozza em Samba do Fim do Mundo.

Politicamente, é um rolo compressor. "A grana dita/Cê desacredita/Fantoches/Pique/Celso Pitta/Mentem mortos", canta ele com Pitty, em faixa liberada ontem e que resume o espírito do álbum: ninguém é igual nesse pop nacional, mas as desigualdades podem conviver harmonicamente com perfeição.

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