Originais alterados em nome da justiça

Nova edição do clássico Huckleberry Finn suaviza insultos aos negros

Adam Kirsch, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Quando a Câmara de Representantes renovada se reuniu no dia 6, a liderança republicana manteve sua promessa de começar a sessão lendo o texto da Constituição em voz alta. Essa quebra da tradição parlamentar teve um propósito polêmico: o representante Robert Goodlatte, republicano da Virgínia autor da ideia, observou que "muitos eleitores meus disseram que o Congresso foi além de seus poderes conferidos pela Constituição".

Se a leitura pretendia vencer por originalidade, eles pisaram na bola no texto do Artigo I, Seção 2, que trata da distribuição das cadeiras da Câmara entre os Estados - e ali se diz que esta se baseia "no número total de pessoas livres" e "três quintos de todas as outras pessoas". Em vez de chamar a atenção para esse eufemismo infame para escravos, os leitores no Congresso decidiram omitir essa parte, porque ela foi superada pela 14.ª Emenda.

Ocorre que essa omissão surgiu dias após uma pequena editora, NewSouth Books, anunciar a nova edição de Huckleberry Finn, de Mark Twain, na qual serão substituídos os usos que o autor faz da palavra "nigger" (negro, com conotação pejorativa) por "slave" (escravo). Também aqui se trata de texto histórico em choque com sensibilidades contemporâneas. Tomados em conjunto, os dois casos mostram a comédia do eufemismo: tentar nos distrair de alguma coisa feia só torna a feiura mais difícil de esconder. Para o novo editor do livro, o especialista em Twain, Alan Gribben, slave é menos ofensivo que nigger; para os redatores da Constituição, "todas as outras pessoas" era menos ofensivo que slave.

A edição censurada de Huckleberry Finn tem sido repudiada. Como escritor, eu percebo a força de todos os argumentos contra manipulações do original, quando menos por ser um terrível precedente: comecem a eliminar tudo de ofensivo na história literária e não sobrará nada. Mas quando voltei ao romance real, comecei a me sentir dividido, pois pude imaginar o efeito que seu dilúvio de epítetos teria sobre um jovem leitor, em especial um jovem leitor negro. (Abra o livro na passagem do segundo capítulo que começa, Strange niggers would stand with their mouths open (em tradução livre, "Crioulos estranhos ficavam parados com as bocas abertas") e veja se conseguiria lê-la para uma classe de alunos da 9.ª série.)

A intenção de Huckleberry Finn era atacar o racismo, é claro. Na cena mais famosa, Huck esconde o escravo fugitivo Jim de caçadores de escravos, e depois se sente culpado. "Eu sabia que tinha agido errado", diz ele, embora o leitor, e Twain, saiba que ele fez a coisa certa. É uma demonstração contundente da maneira como a consciência não é só inata, mas também aprendida, e como é difícil agir certo numa sociedade centrada no errado, os mesmos tipos de perguntas que atormentaram Hannah Arendt no julgamento de Eichmann.

Mas todos aqueles epítetos raciais são lembrete de que, quando Twain os escreveu, o público que ele tinha em mente - a América para a qual escreveu - era segregado. Ele não se incomodou em escrever nigger porque estava escrevendo sobre negros, não para eles. E para muitos leitores, conhecer a literatura clássica significa às vezes ver-se excluído, ou insultado, dessa maneira. Para negros leitores de Twain, com certeza, mas também para judeus leitores de Shakespeare ou Dickens, e para mulheres leitoras, por exemplo, de Platão.

Limitações. Diferentemente do romance de Twain, o texto da Constituição foi escrito na expectativa de que seria corrigido. E ele precisava de correção, ou emenda, por essa razão fundamental: a imaginação dos formuladores sobre o povo que conduziam não era suficientemente plena. Foi preciso uma guerra civil devastadora, cujo sesquicentenário estamos agora observando, para revisar a Constituição na direção da justiça. Quando os leitores na Câmara decidiram pular as partes da Constituição que revelam suas limitações originais, eles estavam amesquinhando essa história, fingindo que nosso documento fundador era impecável desde o começo.

Não, o Congresso não pode "ir além" de seus poderes conferidos pela Constituição, como insistiu o representante Goodlatte. Mas acreditar que as instituições americanas foram sempre perfeitas torna muito fácil acreditar que elas são perfeitas agora. As duas suposições, alguém poderia dizer, pecam contra o verdadeiro espírito da Constituição, que pede que continuemos reimaginando nosso caminho para uma união mais perfeita. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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