Origens do ser - de palavras

Recriações de criaturas da escritora acenam para sua linguagem, que culminava no silêncio

OLGA DE SÁ, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h12

São 35 anos da morte de Clarice Lispector, a 9 de dezembro. Nesses anos, os estudos sobre a escritora se multiplicaram, de tal modo, que se torna difícil levantar-lhe a fortuna crítica. Dissertações de mestrado, teses, biografias inéditas, baseadas em densas pesquisas, no Brasil e no mundo. Uma novidade nesse terreno é Extratextos, no qual um grupo de autores reescreve personagens de Clarice.

Macabéa, por exemplo. Nas duas releituras da protagonista de A Hora da Estrela (1977) que aparecem nas páginas de Extratextos - escritas por Conceição Evaristo e Vera Duarte -, Macabéa não morre. Conceição Evaristo transforma-a em parteira, identifica-a com a Flor de Mulungu, capaz de trazer para a explosão do viver os nascituros. Dá-lhe o gosto de cerzir e de fazer mezinhas. O pé de mulungu tem flores vermelhas. Ele floresce enquanto as outras árvores ainda não. Macabéa renasce de si mesma. Só a árvore mulungu, nessa precária ocasião, oferece o mel de suas flores às famintas aves, que pousam sobre ela. Já Vera Duarte não só ressuscita Macabéa como também a torna bonita, por obra de um cirurgião plástico, que a remodela, inspirado na imagem de Elizabeth Taylor, encontrada em sua bolsa. Macabéa, remodelada e rediviva, acaba se unindo a seu atropelador, como, no texto original, predissera a cartomante. O atropelador brasileiríssimo, filho de um casal de comerciantes bem instalados no Mindelo, sentindo-se remotamente culpado, sem provas, visita-a todos os dias no hospital e se apaixona por ela, que aceita o seu amor.

Silviano Santiago (leia texto ao lado) escolhe, como personagem, o cego do conto Amor. Dá-lhe mãe, casa, bengala, passeio pelo Largo dos Leões e não esquece o chiclete, que mascava, quando Ana o viu. Transforma o susto de Ana e as reações do cego em matéria erótica, sem sequência fabular.

Do conto A Imitação da Rosa temos duas versões: a de Hélia Correia, que faz das rosas as narradoras, e a de Vera Giaconi, que transforma Maria, a empregada, a partir de certo momento, em verdadeira cuidadora de Laura, atenta às suas reações e aos seus passos, mas não consegue evitar a volta da loucura. Desaparecem as rosas, aparece um cãozinho.

Luis Maffei escolheu a Sra. Jorge B. Xavier, (do conto À Procura da Própria Dignidade) perdida nas reformas do Maracanã, no dia de seu aniversário, tendo ido, com dois ingressos (um para o marido, falecido), para um show de Roberto Carlos. Não havia palco, nem público; havia operários e guindastes imensos. Encontrou um homem que, por coincidência, se chamava Roberto Carlos Pereira. Este diz que ela está no cemitério do velho estádio do Maracanã, em reforma. Se houvesse o show, tão esperado, a Sra. Xavier adoraria esquecer a porta da saída, quando tudo aquilo terminasse.

Pedro Eiras escreve um Ajuste de Contas com Ulisses, o professor de filosofia, de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Ajuste de contas, com o professor sabe-tudo, que pretende ensinar Lóri a viver. Ele é cátedra, aforismos, arrogância. Ela, Lóri, é erro, angústia, medo, existência, mística.

Impossível repassar, em tão pouco espaço, todas as recriações das personagens claricianas. Há, porém, os bichos. Mas dos bichos não falarei. Ninguém escolheu ainda a barata como personagem. A barata metafísica. A barata de A Paixão Segundo G.H., que desencadeia a ontologia da imanência de Deus. Desde a criação do mundo, existe a barata. É uma barata ancestral. Uma barata milenar.

Atravessa as eras dos tempos para desencadear, num quarto ensolarado, cortada pela cintura na fresta da porta de um armário, cheio de bafo, o êxtase da comunhão com a matéria do mundo.

Existem, contudo, quatro histórias sobre matar baratas, que uma narradora feiticeira desenrola ante nossos olhos atônitos: as baratas, como um mal secreto, roíam a casa toda.

A narradora aprendeu, de uma senhora, como matar baratas, com uma mistura de açúcar, farinha e gesso. As baratas morreram endurecidas como Estátuas. A narradora cometera, à noite, o Assassinato. Por isso, o galo cantou, como na noite da negação de Pedro.

Na quarta história, as baratas reaparecem, vindas pelos canos, em fila indiana. A narradora estremece, ante a perspectiva de matar baratas, todas as noites. Assim como o gesso arrebentara o de dentro dos insetos, o vício de viver rebentaria seu molde interno.

Como uma casa dedetizada, a narradora ostenta no coração sua placa de limpeza, de virtude. Interessa-me a quinta história, que não foi escrita. Intitula-se: Leibniz e a Transcendência do Amor na Polinésia.

Posso imaginá-la, mas não posso escrevê-la. Não sou a narradora de Clarice. Aliás, que poderia acrescentar-lhe, a mais, que o título enigmático? Leibniz, o das mônadas, escreve que este é o melhor dos mundos possíveis. Não se refere aos impossíveis. Transcendência é o além de tudo. O Amor não se define e a Polinésia é um conjunto de ilhas, que fica no Oceano Pacífico, domínio de vários países: Estados Unidos, Nova Zelândia, França e Chile. Quem quiser que narre a Quinta História. Começa com baratas.

Clarice, quando surgiu na literatura brasileira, na década de 40, com a publicação de Perto do Coração Selvagem, chamou a atenção da crítica por sua originalidade. O nome era estranho, desconhecido. Clarice não pertencia às rodas literárias. Casou-se com um diplomata e saiu do País.

Muito se falou das pegadas de Virginia Woolf, em seu estilo e de sua apreensão da realidade, com caráter de sonho, de alucinação, sua ausência de lógica racional, o mistério do ser, inapreensível pela linguagem.

O primeiro romance de Clarice, Perto do Coração Selvagem, de 1943, foi saudado por Antonio Candido como performance da melhor qualidade e desde lá, até hoje, os textos de Clarice percorrem um árduo caminho, que, de início, ninguém sabia aonde iria desembocar. Entrevistada pela Revista Textura, em 1974, disse: "Eu sou aberta a qualquer experiência. Não sei mesmo qual o meu futuro literário. É o que vier".

A crítica impertinente, mesmo em época de diluição dos gêneros, discute se seus livros podem ser chamados romances. Neles, a fabulação é rala, a estória quase ausente. Ela mesma declarou: "Gênero não me pega mais".

Perto do Coração Selvagem, um romance de aproximação, no dizer de Antonio Candido, é uma tentativa impressionante para levar a nossa língua canhestra a domínios pouco explorados, forçando-a a adaptar-se a um pensamento cheio de mistério, para o qual sentimos que a ficção não é um exercício ou uma aventura afetiva e sim um instrumento real do espírito, capaz de nos fazer penetrar em alguns dos labirintos mais retorcidos da mente.

Clarice, pela voz da linguagem que chega ao silêncio, vai à arché, às origens do ser. Constrói uma voz, para despersonalizar-se na mudez. Essa é, para ela, a missão secreta da vida, A Paixão Segundo G.H., do humano, capaz de morrer para alcançar o inefável.

Água Viva, de 1973, é uma tessitura de 115 páginas, uma escritura de placenta, atravessada por um aleluia vital. Sintetiza a água, o fogo, o ar e a terra. Mas é também medusa, corpo mole, gelatinoso: urticante, provida de pelos pungentes, que queimam, dolorosamente.

Clarice não só sobrevive, mas realimenta a ficção brasileira e, porque não dizer, a literatura universal, com a cerimônia da iniciação da palavra, com gestos hieráticos e triangulares, como escreveu em Água Viva.

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