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Origem do homem moderno

Werner Herzog fala sobre o filme que fez sobre as cavernas inacessíveis

David Gordon Smith, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2011 | 00h00

Werner Herzog sempre teve um fascínio por lugares extremos. Quer sejam eles as floretas tropicais de Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972) e Fitzcarraldo (1982), os campos de petróleo devastados do Kuwait no filme Lições da Escuridão (1992), ou a Antártica do documentário de 2007 Encounters at the End of the World, o cineasta alemão parece mais feliz quando está em locação que testa os limites da resistência humana.

Raramente, porém, filmou num lugar tão inacessível quanto como em seu último documentário. Em Cave of Forgotten Dreams (A Caverna dos Sonhos Esquecidos), exibido no Festival de Berlim de 2011, ele visita a Caverna de Chauvet, na França, que abriga exemplares únicos da arte rupestre paleolítica. O lugar ficou selado por dezenas de milênios - e mesmo hoje, só cientistas têm acesso a ele. A área, descoberta em 1994, abriga centenas de obras de arte puras. Com mais de 30 mil anos, são as ilustrações conhecidas mais antigas criadas por humanos.

Na primavera europeia de 2010, Herzog teve a chance de filmar o interior da caverna. Ele e sua equipe tiveram acesso a ela por poucos dias. Os níveis elevados de gás radônio e dióxido de carbono do local permitem a permanência em seu interior apenas por algumas horas de cada vez. O diretor optou por fazer o filme em 3D - pela primeira vez - para fazer justiça às pinturas da caverna. O resultado é um documentário visualmente impactante.

Der Spiegel conversou com Herzog por telefone quando o diretor se preparava para visitar uma prisão de segurança máxima para um filme sobre condenados no corredor da morte.

Como surgiu o filme sobre pinturas rupestres?

A empresa de produção Creative Differences perguntou se eu estava interessado e disse que sim. Pinturas rupestres paleolíticas foram meu primeiro fascínio. Aos 12 anos, vi um livro sobre elas numa livraria. Trabalhei como catador de bolas de tênis para ganhar dinheiro e quatro meses depois finalmente o comprei. Ainda trago a admiração que senti quando vi aquelas obras e acho que essa empolgação perpassa o filme.

O que o mundo está perdendo? É preciso perceber que cerca de 20 mil anos atrás toda a parede de rocha desabou e selou a caverna. Trata-se de uma cápsula do tempo perfeitamente preservada. Você vê ali pegadas de ursos que parecem ter sido deixadas ontem. Os visitantes não podem pisar em nada e andam sobre uma passarela de metal de 60 centímetros de largura.

Uma experiência arrebatadora.

Chocante. Não são só as pinturas, o lugar não foi visto por dezenas de milhares de anos.

Algumas pessoas poderiam considerar pinturas rupestres como primitivas. Como vê as obras?

Esse é o nascimento da alma humana moderna. É espantoso haver um eco cultural tão distante que parece se estender até nós. Em Chauvet, há a pintura de um bisão abraçando a parte inferior de um corpo feminino nu. Por que Picasso, que não sabia da caverna, usa exatamente o mesmo motivo em sua série de desenhos do Minotauro e a mulher? Muito estranho.

É a primeira vez que usa 3D. Por que o começo repentino?

Em geral, sou cético sobre 3D - não é a ferramenta perfeita para certos tipos de cinema. Nesse caso, porém, soube imediatamente que era imperativo filmar em 3D. O efeito da tridimensionalidade é fenomenal.

Consegue imaginar o uso da tecnologia em filmes futuros?

Estou fazendo um filme sobre prisioneiros no corredor da morte e obviamente esse é um filme que não vou fazer em 3D - seria apenas um elemento de distração, um truque tecnológico. Não o descartaria inteiramente no futuro. Tudo vai depender do tema.

Dado o acesso restrito à Caverna de Chauvet, parece surpreendente o privilégio ter sido concedido a um cineasta da Bavária e não a um da França. Por que o escolheram?

Tive a sorte de Frédéric Mitterrand, o ministro da Cultura da França, ser admirador de meus filmes. Eu me propus a trabalhar para o ministério por um salário de 1. Então o ministério francês obteve o filme por 1 euro e pode usá-lo de graça para fins não comerciais.

Vê seu filme como uma espécie de documento histórico?

Entrei na caverna como um cineasta. É preciso ativar a imaginação do público e o filme cola em você como se você mesmo tivesse estado na caverna.

Faz filmes há quatro décadas. Tem planos de se aposentar?

Um dia terão de me tirar numa camisa de força. Somente assim eu desistirei de fazer filmes. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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