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Origami cisnes para dar apoio ao Japão

Obra dá início a campanha de crianças chilenas em benefício de japoneses atingidos por terremoto

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2011 | 00h00

TEMUCO, CHILE

Nem dinheiro, nem roupa. No Chile, milhares de crianças estão enviando origamis às vítimas do terremoto, do tsunami e do acidente nuclear que assombram o Japão desde 11 de março. Elas acreditam que mil tsurus - as dobraduras em forma de cisnezinhos de papel - realizam qualquer desejo. É o que diz uma antiga lenda japonesa.

A "campanha" dos mil tsurus teve início acidentalmente. A jornalista chilena e autora de livros infantis María José Ferrada - também professora de literatura japonesa no Instituto Chileno-Japonês de Cultura, em Santiago - começou a produzir as primeiras dobraduras no mês passado, com a ilustradora Francisca Yañez. As duas têm uma microeditora de livros infantis, a Libros Del Snark (www.librosdelsnark.jomdo.com), que produz tiragens mínimas, de apenas 20 ou 30 exemplares, de livros artesanais, feitos à mão.

Ao comentar no Facebook que estava produzindo dobraduras para enviar às crianças japonesas, a ideia ganhou proporções gigantescas. María e Francisca receberam mais de 4 mil cisnezinhos de papel, mandados à casa da escritora de todas as regiões do Chile. Muitos dos que estão enviando as dobraduras são vítimas do terremoto seguido de tsunami que arrasou parte do Chile em fevereiro do ano passado, deixando 524 mortos e 31 desaparecidos.

"As crianças dos dois países viveram desastres naturais semelhantes e acho que isso motivou muita gente a ajudar", conta María. "Não esperava tantos tsurus, foi uma surpresa. Muitas crianças enviavam fotos de suas famílias e cartinhas de solidariedade aos japoneses. No começo, não sabia o que fazer com tudo isso."

María e Francisca decidiram publicar a história dos origamis. No conto, um tsuru pretende, depois do terremoto, levar solidariedade às crianças japonesas e, para isso, pede ajuda a outros 999 amigos. O livro está editado em espanhol e japonês e será doado a escolas dos dois países. Apesar de não ter dinheiro, as autoras não aceitaram associar-se a nenhuma das empresas privadas que propuseram financiar a publicação. "Não queremos dinheiro de empresários que usariam o trabalho dessas crianças para conseguir dedução de impostos que deveriam favorecer justamente as crianças mais pobres", afirma María.

A chancelaria chilena comprometeu-se a enviar a publicação e os 5 quilos de tsurus por mala diplomática a Tóquio. Pelo menos mil dobraduras devem ficar em templos japoneses, já que são interpretadas como uma oração coletiva. Os outros 3 mil serão colocados em pontos de grande circulação de pessoas em Santiago.

A produção das dobraduras virou uma catarse coletiva no Chile. Crianças que nunca haviam falado dos traumas deixados pelo terremoto e maremoto do ano passado começaram a referir-se aos dramas das crianças japonesas como se fossem suas próprias histórias. "Muitos chilenos ainda estão traumatizados pelo maremoto de 2010 e, nas cartinhas, desejam aos japoneses tudo de bom que eles mesmos gostariam de ter recebido. É comovente."

A lenda de que os cisnezinhos de papel dão direito a um pedido ganhou força no Japão na década de 1950 com Sadako Sasaki, que tinha 11 anos quando morreu de leucemia. Ela foi uma das milhares de crianças contaminadas pela radioatividade das duas bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Quando foi internada, em fevereiro de 1955, os médicos deram a ela um ano de vida.

Foi no hospital que Sadako ouviu a lenda dos mil origamis e se pôs a fazer pequenos tsurus com todos os pedaços de papel que encontrava. E até pedia embalagens de remédios usados para seguir produzindo os origamis. O sonho manteve a menina viva tempo suficiente para fazer 644 dobraduras. Ela morreu em outubro daquele ano.

No seu funeral, milhares de cisnes de papel foram enviados por amigos e outros japoneses comovidos com a sua história.

Hoje, uma estátua dourada de Sadako, segurando um cisne dourado, pode ser vista no Memorial da Paz de Hiroshima, sobre a legenda: "Este é o nosso pranto. Esta é a nossa oração. Paz na Terra". Ainda hoje, os visitantes costumam depositar origamis no túmulo de Sadako.

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