Orfeu volta a amar Eurídice

Aderbal Freire-Filho anuncia que vai dirigir nova montagem do clássico de Vinicius e Tom Jobim

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Foi na véspera do carnaval de 1942 - Vinicius de Moraes ouvia um samba a distância enquanto lia sobre a lenda grega de Orfeu, o músico que tocava sua lira com tal perfeição que era capaz de convencer os deuses do submundo Hades e Perséfone a ressuscitar sua amada Eurídice. A combinação seduziu o poeta que, inspirado, criou a ópera-samba Orfeu da Conceição, que estreou em 1956, com composições de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer. Desde então, tornou-se um marco, inspirando novas montagens além de adaptações para o cinema.

"É um poema em forma de teatro, como bem definiu Vinicius", comenta o diretor Aderbal Freire-Filho, responsável pela concepção de uma versão que vai estrear no dia 9 de setembro no Rio. "Por conta disso, a dramaturgia original permaneceu intocada - apenas destaquei suas qualidades, criando uma outra dramaturgia em torno da trama central, nas margens, como se fosse uma nova moldura para um quadro clássico."

Há dois anos que Aderbal trabalha no projeto, quando foi convidado pelo produtor Gil Lopes que, entusiasmado com a consolidação do musical no gosto do espectador brasileiro, buscava um título para produzir. "Logo pensei no Orfeu que, além de contar com canções que quase todo mundo sabe cantar ou assobiar (como Se Todos Fossem Iguais a Você), também não foi mais montado de acordo com as orientações da dramaturgia original de Vinicius, desde sua mítica estreia", comenta ele que, ao levantar a produção, cercou-se de um exército de craques: além de Aderbal, responsável pela dramaturgia e direção, foram convidados Jacques Morelenbaum e Paulinho Jobim (filho de Tom) para a coordenação musical; Marcos Flaksman para a criação de cenários e Maneco Quinderé para a iluminação; e Carlinhos de Jesus, encarregado da coreografia.

Aderbal fez questão de manter o registro clássico e poético do original, mas acrescentou mais humor. Para isso, teve uma ideia luminosa, a de colocar o próprio Vinicius como personagem, além de escalar um grupo de sete amigos do poeta, com quem ele dialogaria, personalidades como Manuel Bandeira e Oscar Niemeyer. "Essas inserções não comprometem o original, pois Vinicius faria o papel de Corifeu e os amigos formariam o coro que já existe", conta. "Isso permitirá uma aproximação do mito com o cotidiano atual do morro carioca."

Morelenbaum e Paulo Jobim foram incumbidos de escolher outras canções que seriam acrescidas às 14 originais e apresentadas em momentos com mais diálogos. "Buscamos não apenas composições de Vinicius como de outros criadores, como Baden Powell", observa Jobim. "O ideal é manter o equilíbrio entre o texto falado e a música."

A formação do elenco já começou, com a realização de audições durante o mês de junho - são 20 atores, no total. Em julho, deverão começar os ensaios. Aderbal conta que, no início do processo, Lázaro Ramos se interessou pelo papel principal, mas atualmente está comprometido com outros projetos. Já Taís Araújo negocia sua presença como Eurídice.

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