Orfeu em versão comportada

Amor e ópera costumam andar juntos desde que o mundo é mundo ? ou, pelo menos, desde que o gênero foi criado. Se a Traviata, de Verdi, é símbolo do arrebatamento romântico, Orfeu e Eurídice, de Gluck, nos leva de volta ao universo barroco e a um momento em que a ópera, adolescente, ainda buscava uma ligação mais coesa entre teatro e música.

, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

Por tudo isso, foi auspicioso o início do espetáculo apresentado no fim de semana no Teatro São Pedro, produção da Orquestra Acadêmica dirigida por Rodolfo Garcia Vázquez. A primeira impressão levava a uma ligação entre palco e fosso. Em que pesem problemas pontuais da orquestra, comandada por Luciano Camargo, uma boa direção de atores levava a uma movimentação cênica eficiente e desenvolta.

E funcionou muito bem o recurso de projetar no fundo do palco a imagem daquilo que estava sendo apresentado na boca de cena. A história de Orfeu, que desce ao inferno em busca de sua amada Eurídice, é um dos símbolos ocidentais do amor. E a oposição entre o geral (palco) e o detalhe (projeção) de alguma forma sugere a oposição entre o que é épico e o que é humano. Além disso, fazer da própria ópera, por meio da projeção, o cenário da ação se presta bem a um título que é símbolo do momento em que o gênero ainda buscava se estabelecer.

A partir do segundo ato, no entanto, o espetáculo perde em invenção e em força narrativa. Orfeu se depara com as Fúrias, que tentam impedir sua entrada no mundo dos mortos. Vázquez recorre aqui a imagens, projetadas ao fundo, de exércitos, Hitler, guerras, doenças. As Fúrias que impedem Orfeu de reencontrar seu amor tornam-se assim ponto de partida para a ideia de que é o mundo, com suas guerras e tragédias, que tornam o amor impossível no mundo contemporâneo.

E como resolver essa questão? A resposta surge no ambiente criado para o terceiro ato. Orfeu encontra-se com Eurídice e inicia o caminho de volta a seu lado. Mas não consegue cumprir a condição de não olhar para ela antes de chegar ao mundo dos vivos. E a vê morrer novamente em seus braços. Tenta, então, se matar, mas é impedido pelo Amor (interpretado com sensualidade pela soprano Solange Siqueirolli), que, convencido da verdade de seu sentimento, devolve a vida à jovem e permite que o casal celebre, enfim, seu reencontro. Nesse momento, projeções psicodélicas tomam o telão ? e o coro se apresenta em trajes hippies que evocam os anos 60 e o desejo de paz e amor como resposta ao tumulto do mundo.

Não há mal em tirar a ação do contexto original para estabelecer novos significados. Ao contrário. O que falta aqui é justamente apostar mais nessa proposta. No final das contas, se relembra o conceito plástico de trabalhos do diretor com o grupo Os Satyros, símbolo da vanguarda em busca da renovação de linguagem teatral, o Orfeu de Vázquez é comportado demais, e recorre a símbolos pouco expressivos.

Vocalmente, a mezzo-soprano Denise de Freitas foi um Orfeu sensível, confirmando seus talentos de atriz ? e a atuação da soprano Lina Mendes (Eurídce) revelou um potencial interessante, ao qual vale prestar atenção. / J.L.S.

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