Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Orelhas parabólicas

Voyeur você conhece. Mas o écouteur, esse escutador indiscreto de conversa alheia?

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2019 | 02h00

Todo mundo sabe o que é um voyeur, esse olhador sem freio, pudor e respeito pela imagem alheia. Mas poucos estarão informados de que o francês criou palavra, também, para designar aqueles que, não menos indiscretos, fazem de seus ouvidos um voraz aspirador de palavras, à revelia e quase sempre a contragosto de quem as profere nas suas imediações. Em português até existe “escutador” – cujo significado, porém, não chega a ter a carga de malignidade auditiva do écouteur, esse irmão menos conhecido do voyeur, ávido por catar uns cacos de conversa jogada fora, em meio aos quais pode às vezes cintilar alguma pérola, ainda que eventualmente falsa.

*

“Você não tem ninguém? Nem um cachorrinho?”

“Certas pessoas deveriam ter um pouco de complexo.”

“Dinheiro é o meu amor não correspondido.”

“Passou por mim, escovada que nem cavalo de corrida...”

“Pai de família é uma espécie de caixa eletrônico carinhoso.”

“Aquele ali é um sachê de todas as porcarias.”

“Toda manhã, tenho que desistir do suicídio.”

“Bom mesmo é romance inglês, que tem charneca, urzes, tentilhão, mangusto, estorninho...”

“Eu não vou em futebol porque não gosto de ver homem de perna de fora.”

“Me explica uma coisa: se o padre largou os votos e se casou, os casamentos que ele fez seguem valendo?”

“Já não sou o mesmo. Aliás, desconfio que nunca fui o mesmo...”

“Hoje em dia, minha filha, só uso sutiã para segurar o santo...”

“Eu sei que a felicidade não existe, mas a gente tem um jeito mais divertido de não ser feliz.”

“Tá magra demais, moça, põe umas pedras no bolso!”

“Aí entrei em estado de espera, que nem computador.”

“É muito senhor de si – e dos outros...”

“Ele se acha a última coca-cola do deserto!”

“Sou do tempo em que algum decote podia ser considerado ‘ousado’...”

“Eu não desencaminhei ninguém. No máximo, encaminhei...”

“O pescoço lembra um fole. E o corpo tem tantos gomos de banha que fica parecendo aquele boneco da Michelin.” 

“Vou bem. Quer dizer: moderadamente bem. Bem sem exagero...”

“Tem namorada firme, com uns seios também.”

“É de uma mediocridade exaltada! E de uma feiura estridente!”

“Ela tem mais anéis que uma cascavel adulta.”

“Uma pessoa básica, entende? Orgânica, feita em casa. No casamento, deve ter tido chuva de arroz integral.” 

“Pra saber a idade, depois de tanta plástica, só usando o carbono 14...”

“Um texto tão mal-ajambrado que dava a impressão de ter sido escrito por um cinegrafista amador.”

“Esse problema não é da minha terapia!”

“Terapia é uma espécie de reciclagem de lixo existencial.”

“Sou contra a depressão, sabe?”

“A vida passa rápido, que nem os créditos de um filme...”

“Como uma canja ou um quindim, tem gente que é melhor no dia seguinte.”

“Ele tem cara de senhor e roupa de você.”

“Deviam inventar a plástica de voz...”

“O panorama familiar mudou tanto que agora tem o ‘atual filho’...”

“Às vezes a pessoa passa do ponto de morrer...”

“Casamento costuma ser uma união instável.”

“Quando você fica velho, as pessoas passam a te cumprimentar na rua.”

“Depois de velha, deu de prestar atenção em formiga...”

“Tudo muito segmentado. Foi-se o tempo em que você pedia um café, simplesmente, e o balconista entendia.”

“Tanta gente bonita no mundo, e me aparecem esses dois...”

“Ficou parecendo uma pessoa desenhada, sabe como é?”

“Para serem um casal, só faltava brigarem.”

“Quadro de restaurante quase sempre é ruim. Deve ser para a pessoa se concentrar no prato de comida...”

“O apelido dele é Mentira. Não que seja mentiroso. É que tem as pernas curtas.”

“Desossado, o papo dele não passa de conversa mole.”

“Gosta de pagar com moedas, achando que com isso gasta menos...”

“Aquele ali não tem mais filme pra queimar!”

“Errei em cheio...”

“Já tem tempo que eu faço mais sucesso com roupa do que sem. Estou até pensando numa modalidade nova de strip-tease, o strip-tease rebobinado, no qual a pessoa, em vez de tirar, vai botando a roupa...” 

“Gente rica dá festa até pra separar...”

“Está mais preocupado com a sua portabilidade sexual.”

“Quando eu me cansar do corpo, vou para a alma!”

“A coisidade das coisas, tá me entendendo?”

“O aluguel mais caro é a barriga da mãe.”

“Tem mãe que não vale um complexo de Édipo...”

“Fiz uma escova de 50 reais pra me encontrar com ele. Fora os 24 do táxi!”

“Se pernilongo não tivesse áudio, eu nem ligava.”

“Os gregos não eram tão gregos assim.”

“Deviam inventar um supositório de nitroglicerina.”

“Bobo é quem morre...”

“Tudo que é pouco sobra.”

“Tudo demais é muito.”

“Onde está o Alzheimer que não me deixa esquecer essa criatura!”

Tudo o que sabemos sobre:
Alzheimerfutebolfelicidade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.