Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Oramas, uma chance para o concreto

Curador venezuelano promove diálogo entre construtivismo e outras poéticas

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h12

A lista das exposições com curadoria de Luis Pérez-Oramas não deixa dúvidas sobre a inclinação estética do poeta e historiador de arte venezuelano: estamos diante de uma cabeça feita pelo construtivismo, embora aberta o suficiente para abrigar outras escolas. Curador de arte latino-americana do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e da 30.ª Bienal de São Paulo, o crítico, nascido em Caracas há 52 anos, foi o responsável pela mostra das obras de Mira Schendel no MoMA (2009- 2010), além de outras exposições dedicadas à arte construtiva e à abstração geométrica, desde que levou ao Museu da Universidade de Austin, no Texas, em 1999, parte da coleção de Patricia Cisneros, da qual foi curador entre1995 e 2002 - um acervo que tem obras de Torres-García, Lygia Clark, Jesús Soto e Alejandro Otero, entre outros.

A trigésima edição da Bienal paulista, claro, não tem só artistas de tendência construtiva, mas tanto a mostra retrospectiva do artista concreto Waldemar Cordeiro (1925-1973) como a sala que abriga as obras da venezuelana de origem alemã Gego (nascida Gertrude Goldschmidt, 1912-1994) provam seu apego à escola - ainda que Oramas, autor de um livro sobre a artista (Gego: Anudamientos), possa ver, como outros críticos, algo além do construtivismo orgânico da artista em seus "desenhos sem papel", estruturas de aço e varetas de plexiglas que lembram constelações. Segundo Oramas, Gego "desmontou a primazia do projeto ortogonal", como fez a brasileira Lygia Clark ao desistir da representação bidimensional para criar seus "bichos" de metal articulados.

Contudo, desde já, a maior contribuição desta bienal vai para a arte construtiva brasileira, revelando aos críticos, curadores e visitantes estrangeiros a obra de Waldemar Cordeiro, pioneiro da arte concreta que, presente na coleção Adolpho Leirner, vendida para o Museu de Houston, Texas, deve despertar nos americanos o interesse que Mira Schendel suscitou após sua mostra no MoMa de Nova York. Embora diga que a ideia da Bienal não é "produzir uma tese", é certo que tanto a obra de Cordeiro como a de Gego servem de balizas para avaliar os contemporâneos que estão na mostra. E os reflexos dessa eleição já se fazem sentir no mercado antes mesmo da abertura: no dia 5, a Dan Galeria inaugura a exposição Concretos Paralelos, que coloca lado a lado artistas do construtivismo britânico (Victor Pasmore, Robert Adams) e concretos e neoconcretos brasileiros (Waldemar Cordeiro, Willys de Castro e outros).

Oramas confirma seu apego à forma. Uma obra de arte, para ele, não é um documento de arquivo, e sim um objeto palpável, com o qual podemos aprender mais do que com a biografia do artista. A arte não tem, segundo o curador, outra função além de apontar novas dimensões para o espectador. "Eu acredito nas formas e, como Merleau-Ponty, falo que o formalismo não é o mal, mas sim a desconexão entre forma e sentido."

Se as técnicas do Renascimento, como observou Merleau-Ponty, incentivaram a pintura a produzir experiências de profundidade, a arte contemporânea pode oferecer uma alternativa para esse ilusionismo, rompendo com os limites da construção e a ideia de que o espaço só tem três dimensões. "Waldemar Cordeiro é um artista pouco sistemático e sabe por quê? Porque há um momento em que os artistas concluem que as formas não são mais que instâncias para serem ativadas." Cordeiro, argumenta Oramas, "queria sair do mito da forma para ativar uma geometria que não existia nelas, mas para elas".

O construtivismo brasileiro, analisa Oramas, está sendo redescoberto pelos americanos não só por uma razão mercadológica, mas por ser uma chave para o entendimento entre o pensamento geométrico e a arte conceitual, uma vez que a arte americana saiu do expressionismo abstrato diretamente para o circo minimalista, que, ao propor uma redução formal, se opôs ao construtivismo europeu por considerá-lo cartesiano.

Os brasileiros, nos anos 1950, quando aqui surgiu a arte concreta, simultaneamente ao advento da Bienal, em 1951, entenderam melhor o que significava a tradição construtiva europeia do que os artistas americanos, segundo o curador. Também por isso Oramas preferiu fazer uma Bienal relacional, não deixando o espectador em suspenso, mas tomando uma posição responsável que não despreza a atitude construtiva tanto de intelectuais - como Cordeiro e Gego - como de artistas sem formação como Bispo do Rosário, que passou sua vida adulta confinado como insano na Colônia Juliano Moreira.

Oramas destaca o papel do artista israelense Absalon (1964- 1993) nessa história. Enquanto Bispo do Rosário tentou construir um espaço habitável numa outra dimensão, onde iria encontrar Jesus e a Virgem Maria com seu manto da Anunciação, Absalon criou igualmente um espaço monástico com suas maquetes pintadas de branco, que representam células habitacionais muito parecidas com as cápsulas que os japoneses usam para dormir fora de casa (os pod-hotéis).

A austeridade dos casulos de Absalon não difere muito das estruturas dos construtivistas do século passado ou das casas construídas pelos arquitetos da Bauhaus, mas ganham outro sentido quando confrontadas com o próprio corpo proscrito de Absalon, marcado pela tragédia da aids (ele morreu aos 28 anos). Sem lugar na sociedade, restou a ele projetar concretamente o que se passava em seu espaço mental nesses protótipos habitacionais, uma forma de protesto social traduzido na criação de um espaço negativo - e, nesse aspecto, eles se aproximam das redes de aço e ferro que formam colmeias e ninhos nas obras de Gego. Elas, ao mesmo tempo que organizam, destroem o vazio que habitam, como já observou Hanni Ossolt - Gego, vale lembrar, era judia e escapou dos nazistas, sendo rejeitada em países europeus até desembarcar na Venezuela.

Embora, como se disse, não seja uma Bienal dogmática, é uma mostra que lida com o conceito de constelação sem rejeitar a máxima de Karl Popper, um filósofo caro a Oramas, que defendeu a liberdade do indivíduo participar ou se manter distante da sociedade em que vive. Popper, mais conhecido como um pensador da ciência, foi amigo do historiador de arte Gombrich. Dizia ser esse desejo de individuação que leva o artista a encontrar abrigo ou uma espécie de consolo na própria criação. Bispo do Rosário e Absalon são exemplos de criadores de um mundo à parte com ressonância no mundo concreto. São homens como eles, além de resistentes como o fotógrafo alemão August Sander e o brasileiro Alair Gomes, dedicados a registrar a vida dos discriminados, que fazem a diferença na arte.

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