Oráculo Quarentão

Obra-prima dos Novos Baianos é revista por Moraes Moreira e Davi Moraes

Ramiro Zwetsch, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h09

Não acabou: o "chorare" ainda ecoa espantosamente contemporâneo em seu aniversário de 40 anos. Obra-prima e segundo disco dos Novos Baianos, de 1972, Acabou Chorare é quase unanimemente reconhecido como um dos melhores discos da história da música brasileira.

São 36 minutos e dez faixas de inspiração, espontaneidade, entrosamento e mistura que se revigoram e nunca envelhecem. Prova disso é o público jovem que frequenta e canta todas as letras nos shows que um dos seus integrantes, Moraes Moreira, vem fazendo desde o ano passado com aquele repertório de clássicos como Preta Pretinha, Besta É Tu e A Menina Dança. "Eu considero Acabou Chorare quase como um oráculo, que a gente vai consultar sempre. A gente estava vivendo um momento de plenitude. Aquilo ficou como uma referência pra nós mesmos", diz o compositor, numa síntese precisa do peso que o trabalho mostrou logo quando saiu e foi potencializado ao longo das últimas quatro décadas.

Ele sabe que fez história - tanto que decidiu contá-la mais uma vez sem reinvenção: o show que ele faz na quinta-feira (dia 19) dentro da programação do evento Vivo Open Air - depois da exibição do documentário Senna - traz o conjunto de canções em arranjos fiéis aos originais, com respeito e sem ousadia. Moraes faz todos os vocais que no disco são divididos com Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo.

Para repetir aquela fórmula, encontrou em casa um dos poucos guitarristas com intimidade e talento suficientes para substituir o virtuoso Pepeu Gomes. "O Davi é discípulo de Pepeu: ele nasceu no sítio dos Novos Baianos e cresceu ouvindo aquele som", explica o pai. "Pepeu é meu mestre na guitarra. Quando eu tinha 10 anos, ele estava lançando o disco Raio Laser e foi aquele show que fez eu decidir o que eu queria fazer. É um cara que me inspirou a ser músico e no jeito brasileiro de tocar guitarra. Foi a partir daí que fui buscar a minha assinatura no instrumento", completa Davi, filho de Moraes.

Para repetir a instrumentação de Acabou Chorare, a dupla conta ainda com apoio de baixo, bateria, percussão e bandolim. No mais, é o violão do próprio Moraes e a levada que ele criou nas seis cordas acústicas para acompanhar a poesia delirante do letrista Galvão. Se na mão esquerda os acordes buscados eram influência explícita de João Gilberto, na direita a munheca e o dedilhado desenvolviam um balanço muito particular.

"Foi um estilo que eu criei, você só ouve esse violão nos Novos Baianos. Veio do meu jeito de tocar samba, de misturar rock com baião. As pessoas pedem que eu faça um songbook pra entenderem como eu fazia. Muita gente consegue tirar as harmonias, mas é difícil tocar como eu", esnoba, cheio de razão, e não sem antes ressaltar a importância do pai da bossa nova nessa equação. "A nossa ligação com João veio através do Galvão, que já o conhecia de Juazeiro da Bahia. Na primeira vez que fomos à casa dele, em Ipanema, passamos uma noite fantástica - tanto que eu tive vontade de parar de tocar. Era uma coisa tão perfeita e impressionante que minha reação foi: 'Eu nunca vou chegar nem perto disso, é melhor eu desistir'. Depois de umas duas semanas, comecei a me recuperar e pensar: 'Vou aproveitar essa oportunidade de ficar ao lado desse mestre e aprender com ele'. E João passou a visitar a gente, gostava da nossa casa, do nosso jeito de viver."

Essa convivência entre Novos Baianos e João Gilberto é notoriamente um dos aspectos cruciais para o resultado de Acabou Chorare - já abordado, inclusive, no documentário sobre a banda Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas. Foi ele quem apresentou aos pupilos o samba Brasil Pandeiro, de Assis Valente, a primeira faixa do álbum; e a expressão que dá nome ao disco foi criada por sua filha, Bebel Gilberto, num rompante de genialidade infantil, misturando idiomas por viver entre México e Brasil.

"A gente estava tocando no sítio, a Bebel levou um tombo e quando o João foi socorrer, ela disse: 'Não, papai, acabou chorare'", lembra Moraes. Hoje um gênio recluso, João Gilberto admirava aquela convivência em comunidade, em que todos os músicos viviam juntos.

Davi Moraes identifica nesse dia a dia intenso parte do segredo de Acabou Chorare. "Eles ensaiavam muito por morar juntos e na hora de gravar ninguém podia errar, porque faltava recurso de equipamento. Nem afinador tinha, era tudo de ouvido. As vozes foram gravadas sem reverb, sem efeito nenhum", palpita.

"É um disco tão certeiro que os arranjos são quase parte da composição. É como se não desse para eliminar aquelas introduções. Começa com o violão suave, daqui a pouco vem a banda pesada. O disco conta uma história perfeita, você não pula nenhuma faixa, uma música vai se encaixando na outra. É um golaço dos caras." Na quinta-feira, o público de São Paulo vai poder rever esse gol com outro time, mas o mesmo toque de bola.

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