Ópera pop e fama rápida impedem o surgimento de granded tenores

O cantor lírico visto como o maior tenorde sua geração morreu. A ascensão da "popera" (fusão do pop eda ópera), a obsessão pelo estrelato instantâneo e o limitadogrupo de talentos entre os tenores da atualidade significam quenão veremos outro como ele por muito tempo. Luciano Pavarotti, que morreu nesta quinta-feira aos 71anos, foi diferente de qualquer outro tenor, dizem os críticos,porque reunia uma voz lírica graciosa com carisma, em doses tãograndiosas quanto era grande seu corpo. Ele também conhecia suas próprias limitações, e, por isso,restringiu seu repertório para não aceitar papéis que nãofossem adequados para ele, evitando cantar em línguas demais. O importante crítico de ópera Norman Lebrecht disse que afalta de investimentos em músicos e gravações clássicasatualmente significa que encontrar um sucessor para Pavarottiserá mais difícil que nunca. "Não valorizamos a ópera da mesma maneira (que no passado),não fomentamos o talento da mesma maneira, nem criamos umatrajetória profissional mais fácil", disse o crítico à Reuters. Lebrecht afirmou que é quase impensável, nos dias de hoje,que um garoto italiano que crescesse em Módena, a cidade natalde Pavarotti, optasse por uma carreira na ópera em lugar dofutebol, outro dos grandes amores do cantor. "O sucesso no futebol e no cinema é muito maior, maisrecompensador e mais rápido, comparado ao trabalho árduonecessário para criar um grande cantor de ópera". Hugh Canning, crítico de ópera do jornal britânico SundayTimes, afirmou que os tenores de talento atuais, em suamaioria, não passaram tanto tempo quanto Pavarotti alimentandosuas vozes e que sofrem pressões para se tornarem vendáveis jáno início de suas carreiras. "Hoje em dia se identifica uma voz muito boa, e quatro oucinco anos mais tarde ela já soa esgotada", disse. Canning citou os exemplos do tenor mexicano RolandoVillazón e do argentino José Cura, que vêm cantando no nívelmais alto com menos frequência que seria de se esperar paraartistas de sua idade. "Acho que é daí que vem a pressão: tentar forçar astros, emlugar de formar e nutri-los de maneira natural." "E agora o mundo quer cantores jovens, para promover suasbelas imagens em belas revistas. Pavarotti foi um astroimprovável, porque já em meados dos anos 1970 ele era um homembastante gordo. Se fosse hoje, talvez não tivesse tido umacarreira como a que teve". PROCURANDO A FAMA, E RÁPIDO Canning disse que evitar o aprendizado prolongado exigidona ópera é uma tentação crescente para os cantores atuais,quando os reality shows na TV podem criar celebridades da noitepara o dia. "Muitos artistas jovens acham que podem pegar um atalho enão fazer o trabalho necessário. Eles querem glamour, fama edinheiro rápidos demais". "Para tornar-se um cantor clássico de alta qualidade, nãobasta vencer um concurso. Pessoas como Pavarotti e PlácidoDomingo são prova disso". "O que realmente os tornou grande foi todo o trabalhoanterior que fizeram antes de apresentar-se nos palcosinternacionais e gravar os discos que recordaremos parasempre", acrescentou o crítico. Especialistas também argumentam que, fora do pequenocírculo dos genuínos amantes do gênero, a maioria das pessoasassocia a ópera a cantores como Andrea Bocelli e a banda IlDivo, que fundem música popular e clássica para tentar chegarao público de massas. A "próxima geração" de tenores é liderada por Villazón e operuano Juan Diego Flórez. O francês Roberto Alagna tem muitos admiradores, embora suadecisão de abandonar o palco do La Scala no ano passado depoisde ser vaiado tenha levantado dúvidas quanto a seutemperamento, como também acontece com o argentino MarceloAlvarez e o mexicano Ramón Vargas. Flórez, como Pavarotti em sua época áurea, canta os dósagudos de "La Fille Du Regiment", de Donizetti, com facilidade.Mas poucos diriam que ele já se equipara ao mestre que acaba defalecer.

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