Ópera para uma era consumista

Ao longo das 16 faixas de Far Side Virtual, James Ferraro hipnotiza com sua trilha de nossa cultura descartável

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h10

Um giro pelo consumismo Wi-Fi que se apodera de shoppings e lojas online no fim do ano poderia compor um videoclipe de Far Side Virtual, instigante e elogiado trabalho, lançado em novembro pelo músico norte-americano James Ferraro. A proposta de Ferraro é comentar o futuro ao qual nossa crescente dependência da aparelhagem virtual aponta, valendo-se de elementos garimpados de um passado não tão distante. Sons do Windows 95, trechos de vozes tiradas do programa Second Life (que conversam com o ouvinte como ajudantes virtuais em uma loja do filme Minority Report - A Nova Lei), pianos que remetem ao muzak de elevador, e toscas texturas de mídi mal processado constroem um mundo propositalmente superficial, formando composições otimistas que se assemelham às trilhas concebidas para fazer o público comprar.

"Far Side Virtual é pós-niilismo", contou Ferraro, este ano, à influente revista The Wire, que laureou o disco como o melhor de 2011. "É uma ópera para a nossa civilização consumista, feita para ser descartável. Eu queria fazer a trilha de nossa cultura descartável. Musicalmente, é um tema da Pixar, uma sinfonia de borracha para o aquecimento global, dedicada à ilha de lixo no Pacífico: música de ringtone feita para ser ouvida por um meio pós-estruturalista, o smartphone", completou.

O disco é um dos marcos da carreira de Ferraro, que tem produzido música de impacto na vanguarda cultural, desde os primórdios de sua carreira, em 2004, com o duo experimental The Skaters, até 2009, quando protagonizou, junto a Ariel Pink, o surgimento do hypnagogic pop, que prima pela baixa fidelidade oitentista.

Far Side Virtual é uma quebra definitiva com o som denso e turvo com que Ferraro ficou famoso. A ideia surgiu quando o músico estava sentado em um bar natureba de Los Angeles, onde integra uma ativíssima cena musical. Enquanto tomava seu smoothie, deu-se conta de que estava em um ecoespaço climatizado, com vitaminas de US$ 60, liquidificadores, laptops e TVs de plasma com menus. No disco, a adaptação musical disto é algo como Palm Trees, Wi-Fi and Dream Sushi (Coqueiros, Wi-Fi e Sushi de Sonho),em que um a voz computadorizada pergunta que tipo de sushi o ouvinte quer, antes de avisar que os guisados virtuais foram feitos pelo chef Gordon Ramsey e que o avatar do Richard Branson, presidente da Virgin, mandou dizer 'oi'.

"A internet manda em tudo na nossa megacidade globalizada", contou ao site The Quietus, recentemente. "As pessoas estão vestindo a internet, ouvindo-a, falando sobre ela, porque tudo é um sintoma dela. A música de todo mundo soa como a internet hoje, do Top 40 ao underground. A moda tem a cara da internet. É um impressionismo esquisito que todos nós usamos. Acho que logo haverá mais arte que simboliza isto. A clareza digital nos deu outra perspectiva para o humanismo", completa.

A esperança superficial que colore Far Side Virtual pode parecer cinismo, ou uma jogada estética feita somente com o intuito de ser diferente. Mas, ao longo das 16 faixas, o digitalismo barato de Ferraro hipnotiza como uma peça de Philip Glass. Sua leveza propositalmente malfeita traz um frescor musical que pulsa junto ao tempo em que estão sendo feitas. No entanto, para compreender Far Side Virtual, é necessário reconectar as memórias que associam seu verniz precário a música ruim, e entendê-lo tanto como manifesto quanto como disco.

Trata-se de uma guinada considerável, porém lógica, para longe de seu último trabalho, o Multitopia, uma suja mistura sonora de fragmentos esquecidos da música de baixa qualidade oitentista. Assim como Ariel Pink, o som de Ferraro em Multitopia deixa o ouvinte com a sensação de que está solto em um espaço infinito de arquivos do YouTube, onde um naco de cultura esquecida se vincula a outro de forma aleatória.

Antes disso, Ferraro fazia música experimental de ruído com nome de The Skaters, dupla formada pelo próprio e o amigo Spencer Clarke, que lançou o seminal Dark Rye Bread, em 2004.

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