Ópera leva brasileiro comum ao palco

Ricardo Guilherme. Poucos associam esse nome a uma trajetória teatral polêmica e premiada. Pelo menos em São Paulo. O mesmo não ocorre em Fortaleza, onde Guilherme é professor de História do Teatro Brasileiro na Universidade Federal do Ceará, criou o Museu Cearense de Teatro - hoje um Centro de Pesquisa - e há 13 anos dirige a companhia Teatro Radical Livre. Com 101 peças no currículo, como ator, diretor e dramaturgo, ele dirige pela primeira vez em São Paulo, cidade em que esteve por duas vezes, apresentando, no Sesc, os espetáculos de sua companhia: Bravíssimo e A Divina Comédia de Dante e Moacir, este último com ótima repercussão de crítica, no ano passado.Repercussão que lhe valeu o convite do Sesc para criar a concepção cênica de Bis!, peça inspirada na obra de Nélson Rodrigues que estréia nesta quinta-feira, no Sesc Ipiranga, integrando o bem-sucedido projeto Pocket Ópera. Com direção musical de Laércio Resende e libreto de Cláudia Vasconcellos, a ópera foi inspirada no mesmo conto de Nélson Rodrigues adaptado para o cinema com o título A Dama do Lotação.Além da concepção cênica da ópera, propriamente dita, Guilherme criou o que chama de "moldura", um prólogo e um epílogo para o espetáculo, bem na linha da pesquisa de linguagem que desenvolve com sua companhia Radical. Além de apaixonado pelo autor de Vestido de Noiva, Guilherme é profundo conhecedor de sua obra. "Eu desmonto e remonto Nélson." Não exatamente textos de Nélson. Segundo ele, o que faz é "transcriação" baseada no universo do criador - escreve como se fosse o autor, com sua linguagem, seu estilo inconfundível, suas obsessões, suas idéias, porém novos textos, jamais assinados por Nélson. "Costumo dizer - ele escrevemos isto."É o que faz na moldura de Bis! Partiu de uma crítica de Nélson Rodrigues a uma ópera, publicada no livro O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro. Não foi a única. "Nélson costumava fazer pose de analfabeto. Dizia não ter lido nada. Acho que era mais fácil passar por gênio nato, do que competir, culturalmente, com gente como Manuel Bandeira ou Drummond. Mas ele assistiu e criticou a muitas óperas. E tanto a ópera como a literatura de Dostoiewski influenciaram sua dramaturgia", comenta Guilherme.No texto publicado por Castro em seu livro, Nélson critica o mundo da ópera por fechar-se em sua tradição. E diz que nas ruas, diante de nossos olhos, há personagens tão operísticos quanto os do repertório tradicional. Guilherme partiu dessa crítica para criar o texto de sua "moldura", concebida sobre essa idéia, de levar para dentro do teatro, para o palco, os personagens que estão na rua. "É como se o prólogo tivesse sido escrito por Nélson, uma introdução dele à ópera."O ator Luiz Damasceno vive essa "transcriação de Nélson" e abre portas no cenário para deixar entrar a "polifonia atonal dos bêbados anônimos tombados na sarjeta".Como reforço dessa idéia - levar a vida do brasileiro comum para o palco - Guilherme apoiou-se ainda no mito de Narciso. "No momento em que o espectador reconhece no palco o drama que vê na rua, ele se vê. E se deslumbra com a imagem refletida de suas chagas. Acha lindo e pede bis." Essa idéia se traduz, no cenário, por uma platéia no palco. "Os músicos agem como se estivessem numa platéia e assistissem a uma ópera - representada pelo público. Por isso, cada espectador vai receber um programa em forma de partitura e uma máscara. Rapidamente ele vai entender o motivo, vai entender seu papel nessa ópera, onde tudo é bisado."No palco, apenas quatro personagens, todos sem nome. O marido, a mulher, o amante e o pai. No conto original, um marido desconfia que a mulher o trai com um amigo. Decidido a matá-lo, ouve da mulher que ele não é o único. Ela o trai com muitos, sem escolher. Ainda como variação da brincadeira o espelho - do bis de cada imagem -, o amante usa óculos escuros. "É aquele que quer ver, mas não ser visto."Já a mulher está vendada. "Ela está cega de desejo. Não vê. É puro instinto." O marido e o pai usam óculos de lentes muito grossas. "Eles querem ver, analisar, dissecar, descobrir, entender", comenta Guilherme. E compara os personagens do dramaturgo a centauros. "Eles sofrem porque querem negar seu lado animal. Eles chegam a cogitar um casal tão puro, tão casto, que pudesse viver uma vida a dois sem sexo. Mais que isso. Sem desejo. São animais querendo ser divinos, fracassando e sofrendo."Bis! Inspirado na obra de Nélson Rodrigues com textos compilados pelo diretor Ricardo Guilherme. Duração: 90 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 12,00. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000. Até 29/7.

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