Ópera italiana, em russo

Soprano Anna Smirnova rouba cena em produção de Aida

JOÃO LUIZ SAMPAIO / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h08

Se a ópera tivesse terminado por volta das 11 da noite de sábado, no fim do terceiro ato, seria necessário dizer que nenhuma das vozes se sobressaiu na montagem de Aida, de Verdi, com a qual o maestro Isaac Karabtchevsky fez sua estreia como diretor artístico do Teatro Municipal do Rio.

Mas havia ainda um quarto ato. E a mezzo-soprano russa Anna Smirnova subiu ao palco pronta para desempatar a partida. A voz quente e expressiva, repleta de coloridos, fez de sua Amneris, a filha do rei egípcio, e do conflito de uma mulher apaixonada pelo traidor de sua pátria, os pontos altos da noite.

A expectativa, é verdade, girava em torno da Aida da soprano italiana Fiorenza Cedolins. A voz, verdade, não é particularmente grande, mas ela convence cenicamente e, mais do que isso, é extremamente musical, inteligente na construção das linhas melódicas, no uso de dinâmicas e na condução do papel.

Mas na ária O Patria Mia, a voz falhou. O palco de ópera às vezes é como uma arena de gladiadores - e o público não perdoa deslizes como esse. Ainda assim, seu desempenho foi muito superior ao do tenor Rubens Pellizari, duro e caricato em cena, cujo Radamés é um inventário de todas as escolhas de mau gosto a que um tenor pode recorrer na hora de construir um personagem.

Melhor sorte tiveram os brasileiros. Sávio Sperandio foi um Sacerdote construído a partir de nuances nem sempre ouvidas no papel; Carlos Eduardo Marcos, um rei sóbrio; Lício Bruno, um Amonasro eficiente - e mesmo em uma passagem pequena como a do Mensageiro, Ricardo Tuttmann, solista veterano do Municipal do Rio, soube roubar a cena.

Os cenários geométricos de Hélio Eichbauer abrem mão da tentativa - raramente bem-sucedida - de recriação naturalista do Egito. E, combinados com as projeções e o uso de telas, criam atmosferas, mais do que locais específicos. O problema está na iluminação, pouco ousada, que iguala as cenas e joga para segundo plano os contrastes da narrativa.

E eles são especialmente importantes em uma ópera como Aida. Pois é no limite entre o dever público e o desejo privado que habitam os personagens criados por Verdi. Não se trata de dois universos estanques - e é justamente da comunicação entre eles que nascem os conflitos da ópera (um exemplo perfeito é a cena em que Amneris ouve, do lado de fora do templo, o julgamento de Radamés).

Da mesma forma, a direção cênica de Iacov Hillel recorre a fórmulas tradicionais, seja na movimentação dos solistas, seja no posicionamento do coro - e isso é problemático, uma vez que, por conta do caráter estático dos cenários, recai sobre os solistas dar forma à intensidade da música.

A boa notícia veio do fosso da orquestra. Em seu primeiro compromisso com o novo diretor da casa, os músicos da Sinfônica do Teatro Municipal foram bastante exigidos e - em que pesem deslizes individuais e certa falta de virtuosismo em algumas seções - não comprometeram a fluência e teatralidade da regência de Isaac Karabtchevsky. Mas este é ainda o início de um trabalho. E os demais compromissos do grupo este ano (o próximo deles, A Valquíria, de Richard Wagner) darão a medida dos desafios que precisarão ser superados para que a orquestra volte a ser um dos principais conjuntos do País.

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