Ópera do Malandro, por Gabriel Villela

A alegria e a vitalidade são indisfarçáveis - o diretor Gabriel Villela percorre corredores e palcos do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) com a ansiedade de quem está a poucos dias de retomar uma das principais vocações daquele espaço. No dia 29, além de comemorar os 52 anos de funcionamento do TBC (e de um ano de sua completa reforma), Villela inicia as atividades da Companhia Estável de Repertório e a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, foi o musical escolhido para cortar a fita inaugural. "A obra do Chico está impregnada no consciente do brasileiro, basta cantar alguns versos que todos identificam a música", justifica o diretor. "Trata-se de uma identificação permanente na cultura nacional."Os motivos não cessam. Segundo Villela, o compositor desenvolveu uma obra crítica às instituições políticas e sociais que identificam perfeitamente a sociedade atual. "O Brasil está se transformando em uma terra de ninguém, onde traficantes trocam tiros durante o dia e fotos de um juiz procurado estão espalhadas nos aeroportos." Motivado pelo caos, o diretor decidiu ambientar a montagem em um saloon, criado pelo cenógrafo J. C. Serroni, com os 25 atores transformados em caubóis de asfalto, em uma crítica também à americanização da sociedade. "Os agroboys estão matando o Jeca Tatu", justifica ele, também diretor-artístico do TBC.Também a falência do casamento, apresentada no musical, serviu como fio condutor. Para tanto, o diretor colocou anúncios em jornais, em busca de vestidos de noiva usados. Freqüentou também lojas de roupas usadas. "Conseguimos 200 vestidos e pelo menos 80% deles traziam a marca do fracasso, da frustração ao pé do altar", comenta Villela que, com o material descosturado, confeccionou os figurinos e parte do cenário. Foram quatro mil metros de tule, seda, cetim e tafetá, entre outros tecidos.O figurino é completado por adereços inusitados: próteses deformadas de órgãos genitais, que Villela comprou em Londres e que estão sobrepostas nas roupas dos atores. "Esse estado de mutilação é proposital; as próteses têm a função de inverter a anatomia original das personagens, mostrando o que é o circo de horror."Erro calculado - As deformidades nortearam o diretor, que decidiu escolher o erro como o mote. Assim, os atores propositalmente desafinam em algumas canções, o cenário é assimétrico e deliberadamente torto, os figurinos não escapam de um corte errado e até a iluminação, de Guilherme Bonfanti, aposta no excesso: uma mistura de lâmpadas não convencionais (com destaque para fluorescentes e de fibra ótica) e os refletores computadorizados convivem com equipamentos tradicionais de teatro. "Trata-se de um malfeito cuidadosamente bem-feito", diverte-se Villela que, com a preparadora corporal Maria Thaís, trabalhou o elenco com a noção de erro proposital.O tema do casamento serviu também como ponte para os projetos futuros da companhia, que vai encenar, no próximo ano, mais dois musicais brasileiros: Gota D´Água e Calabar. Com isso, o TBC vai transformar-se no templo de Chico Buarque. "Todas as peças se relacionam, pois em Gota..., é tratado o divórcio e, em Calabar, a decepção", explica Villela.A própria elaboração da Ópera do Malandro, que é inspirada em outros dois textos (Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, que se baseou na Ópera dos Mendigos, de John Gay), auxiliou o trabalho do diretor. "É um processo de apropriação da apropriação, portanto, podemos utilizar outras idéias sem grandes temores."Villela, porém, não se dispõe a buscar inspiração em conceitos alheios. Eufórico com o projeto, exibe o próprio sorriso de um vencedor - depois de sofrer com problemas particulares, que interferiram em sua produção, voltou-se para o trabalho com uma grande disposição e uma nova forma de agir. "Fui ao inferno e voltei, depois de uma revisão profunda do artista que sou", conta. "No retorno, decidi dividir minhas funções."Assim, habituado a cuidar também do cenário e figurinos em sua montagem, com a Ópera..., Villela delegou poderes. "Despojei-me de toda vaidade e convoquei os melhores profissionais para me ajudarem", afirma. "Percebi que minha salvação como artista é imaginar que não estou criando." Sem a obrigação de um acúmulo de funções, o diretor preocupou-se com o trabalho com os atores, selecionados a partir de testes realizados em maio. "Fixei o pensamento na atuação e repensei a composição do trabalho teatral, feito agora por várias mãos competentes."Ópera do Malandro. Musical de Chico Buarque. Direção de Gabriel Villela. Duração: 2 horas. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 10,00 (quinta); R$ 15,00 (sexta); R$ 25,00 (sábado) e R$ 20,00 (domingo). TBC - Sala TBC. Rua Major Diogo, 315, tel. 3115-4622. Estréia dia 29

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.